domingo, 12 de abril de 2026

ÍNDICE

 CONTOS

Dia de Finados

Segunda Chance

Além da Fronteira da Névoa

O Diário

O Levantar

Kristian Carnahan


MINI-CONTOS

Mais uma noite

O que há além das estrelas


TRATADOS

Rei Arthur e os leitores de HQ da Idade Média

A diferença entre fé e otimismo

Nada mais importa

Reminiscência Afetiva

Curiosando e Aprendendo: O Homem Verde da Terra-Média

Texto não recomendado para quem tem fé monoteísta


TRADUÇÕES DE ARTIGOS

Crônicas da Espada

Crônicas de dados e fogo

Texto não recomendado para quem tem fé monoteísta

 Muitas vezes, quando vejo pessoas passando por tragédias ou situações difíceis na vida, vejo também uma atitude recorrente: elas voltam-se para a fé, para a oração, pedindo por uma intervenção divina que resolva milagrosamente a situação, que possa reverter os males causados e que impeça ainda mais tristeza e sofrimento decorrentes disso. E minha mente completamente lógica acaba atraída por essa atitude tão diametralmente oposta. É um misto de perplexidade com uma vontade absurda de ajudar, através da lógica, de resgatar as pessoas do abismo da superstição, principalmente por saber que foi o desespero que as levou até lá.
    É comum, quando converso com pessoas que tem fé, eu me posicionar em um ponto hipotético no qual eu participo da conversa supondo que aquilo que a pessoa acredita é real. Não minto dizendo que acredito. Simplesmente desenvolvo a conversa como uma prática filosófica, deixando claro que aquela crença não me pertence e fazendo questão de utilizar a expressão “supondo que”, várias vezes ao longo da interação. Na maioria dos casos, a fé em questão se resume a deus. E como se sabe, na nossa sociedade, esse conceito acaba sendo bastante pessoal. Por mais que a pessoa que tenha a fé se identifique com uma religião específica, que por sua vez tem seu conceito de deus bem estabelecido, na prática, cada um acaba adotando uma interpretação pessoal de deus, que varia bastante de pessoa para pessoa. Mas algumas características se mostram constantes: quando falam de deus, se referem a uma entidade sobrenatural, superior, responsável por nós e capaz de direcionar os acontecimentos do universo de acordo com a sua vontade. E essa relação com deus levanta alguns profundos questionamentos para mim.
    Escuto com muita frequência a expressão “se Deus quiser”, até mesmo de pessoas que não acreditam em deus, devido à popularidade que ela adquiriu na nossa sociedade. Mas não consigo abstrair a sensação de passividade e submissão que a expressão passa. É uma frase utilizada em situações nas quais não estamos certos do resultado, quando queremos que algo dê certo, mas sabemos que há uma possibilidade de dar errado. E, por fim, essa resolução é colocada nas mãos de alguém acima de nós. Ao meu ver, existe mais uma camada de interpretação nessa frase, uma interpretação lógica. Ao mesmo tempo que é dito “se Deus quiser”, conclui-se também que, se deus não quiser, aquilo não vai acontecer. E esse ponto de conclusão pode gerar duas reações: uma, a mais comum entre monoteístas, cristãos, é a de aceitação, de acatar a vontade e o plano de deus. “Deus não quis, não há nada que eu possa fazer.” A outra reação, de recusa, seria surpreendente vinda de um monoteísta, cristão. Tenho a impressão de que ela se inspira mais em mitos politeístas, de deuses não onipotentes. É a determinação de não aceitar uma decisão divina, de querer algo tanto a ponto de encarar deus e dizer: “Se você vai colocar obstáculos no meu caminho com o intuito de impedir que eu consiga o que eu quero, faça o seu melhor, porque eu não vou desistir.” Ao meu ver, essa reação é tão mais inspiradora que a outra, tão mais esperançosa. Assim, por mais de uma vez, ao ouvir a frase “se Deus quiser”, me coloquei no ponto hipotético da outra pessoa e respondi: “mesmo se ele não quiser”. Na prática, esse posicionamento de não submissão, de não desistir, acaba gerando mais esforços da nossa parte, nos faz buscar mais caminhos, mais alternativas. O “se Deus quiser” é um ponto final. É o ponto em que as pessoas param de tentar, e muitas vezes quando ainda há o que ser feito. Então sou obrigado a dizer que eu ficaria muito mais feliz se eu ouvisse “mesmo se ele não quiser” de pessoas com fé também. Se é para terem uma fé, que seja então uma fé mais otimista e menos submissa.
    Outro ponto de questionamento são frases vazias geradas por uma fé cega. Voltando ao conceito de deus apresentado anteriormente, para a pessoa que tem fé, deus é responsável pelos acontecimentos do universo. Mas, convenientemente, essa responsabilidade costuma ser ignorada quando os acontecimentos são ruins. As redes sociais estão cheias de postagens dizendo “Deus é bom o tempo todo”. Adesivos de carro e até embalagens de alimentos de empresas pequenas repetem mecanicamente a frase “Deus é fiel”.  Onde está a bondade quando uma criança é violentada? Quando um criminoso sai impune de um julgamento? Onde está a fidelidade de deus quando uma pessoa vive uma vida inteira de devoção sem sair da miséria e do sofrimento? O argumento mais comum apresentado por pessoas que defendem a crença em deus é de que os planos dele não são compreensíveis para nós, meros mortais. E nesse ponto, pela perspectiva hipotética da existência de um deus, concordo completamente. Se existe um deus tão superior a nós e se ele tem um plano para o universo, tenho que concordar que esse plano não faz sentido para nós. Mas temos nossos conceitos bem claros do que é bom e do que não é, com base em nossos princípios e nossa empatia. E podemos dizer com todas as palavras que, dentro do nosso conceito de bondade, casos deploráveis como os exemplos que apresentei aqui definitivamente não são bons. Dizer o contrário é insistir contra a verdade, é tentar criar uma ilusão de uma bondade divina constante que não existe. Como seria perfeito se as pessoas dissessem: “Deus NÃO é bom o tempo todo.” “Deus pode não ser fiel.” Mais uma vez, se é para terem uma fé, que seja uma fé mais realista, que não ignore tanto a realidade em que vivemos.
    Por fim, chego à questão da oração. As pessoas que têm fé passam por momentos difíceis e, por costume, recorrem à oração no desespero. Durante a oração, elas pedem, ou até, frequentemente, imploram, para que seu deus interceda e forneça uma resolução desejada. E não levam em consideração quem foi o responsável - em sua fé - pelo momento difícil, acima de tudo. Pedem para que a mesma entidade que gerou o problema remova o problema, ou o amenize. Mas e o plano de deus? E a vontade inicial dele, ao gerar o problema? Essas perguntas nos deixam com algumas hipóteses, que trazem ainda mais perguntas. A primeira hipótese é que essa entidade supostamente superiora pode ser convencida de alterar seus planos através das súplicas dos fiéis, muitas vezes feitas sem um argumento mais forte do que evitar nosso sofrimento. Essa súplica não poderia ser prevista, e o problema assim evitado desde o início? Ou a súplica faz parte do plano? É então uma entidade que exige que se implore para atender pedidos? Isso a torna digna de adoração? A segunda hipótese, igualmente assustadora, é que deus não sabia que geraria sofrimento como consequência de sua decisão, e são as orações que o alertam para esse efeito. Então a entidade no comando do universo não é capaz de prever algo que nós, mortais, conseguimos? Retomando o ponto de vista politeísta, me parece mais sensato fazer uma oração. Um deus quis que algo ruim acontecesse, faz sentido pedir para que outro deus corrija aquilo. Mas limitar os acontecimentos a um único deus leva inevitavelmente a algum dos questionamentos apresentados aqui. Rezar para um deus único é implorar para que o responsável pela desgraça desfaça o que fez. É se humilhar frente a um poder opressor que decidiu intencionalmente causar um mal a alguém. Sei que não vou encontrar quem tenha a mesma opinião, mas minha reação em uma situação de calamidade, caso eu acreditasse em deus, não seria de oração. Seria de desafio. De confronto. De querer tirar satisfação com o responsável por aquilo, bradar para os céus em vez de me ajoelhar e implorar. Se for mesmo necessário acreditar em deus, isso não quer dizer necessariamente ter que concordar com esse deus.
    São esses questionamentos que vêm a uma mente que funciona de forma lógica e que desenvolveu princípios baseados na empatia e na vida em sociedade. E é essa a vontade de ver a atitude do resto da sociedade. Se a fé ainda é realmente tão necessária para a humanidade, ela precisa mesmo ser tão ilógica?

terça-feira, 26 de abril de 2022

Curiosando e Aprendendo - O Homem Verde da Terra-Média



Ainda faltam 5 meses pra estreia, então só resta conversar sobre o pouco que já apareceu. Como esse pouco é MUITO pouco, a gente vai caçando detalhe pequeno mesmo e inventando teoria.
Tipo essa semelhança visual nas duas imagens aí. Já aviso que desde o começo não acreditei que fosse algo além de coincidência, mas achei curioso assim mesmo.
Contextualizando: a primeira imagem é o poster do novo personagem Arondir, interpretado pelo Ismael Cruz Córdova, que provavelmente será um dos Moriquendi, um ramo dos elfos que decidiu não seguir o caminho para Valinor durante a Primeira Era e, portanto, nunca tomou parte das principais histórias da Terra-Média. Sequer foram descritos; apenas sua existência é mencionada e nada mais.
A segunda imagem é da carta Mathom Lore, ilustração feita pela artista Robin Wood em 1996 para o saudoso card game Middle-Earth. Os hobbits eram acumuladores, principalmente quando se tratava de objetos incomuns, e a todas essas tranqueiras (geralmente inúteis além de servir como decoração) eles davam o nome de Mathom. Portanto, a ilustração mostra um hobbit em casa (ou no museu de Michel Delving) cercado por Mathom de todo tipo e possivelmente proveniente de lugares variados.
Agora a coincidência (se você ainda não viu ali): na primeira imagem, vemos a armadura de Arondir, que parece ser feita de casca de madeira acinzentada (e portanto, não serviria de armadura, e sim, de vestimenta, mas isso não vem ao caso agora). Na parte superior do peitoral, pode-se ver parte de um rosto com nariz largo, bigode e uma barba curta e pontiaguda. Há muitas folhas em volta do rosto e pelo resto do peitoral.
Olhando para a ilustração de Mathom Lore, vemos também, ao fundo, do lado superior esquerdo e meio escondida nas sombras, uma peça de decoração (?) que também é uma representação de um rosto de nariz largo, bigode e barba pontiaguda, e também na cor cinza. Dessa, podemos ver um pouco mais da parte superior da cabeça, onde há um par de adornos em um formato que não está tão claro (asas? chifres? folhas?). O rosto todo tem um aspecto folhoso.
Como os dois elementos podem estar relacionados? Eu não fazia ideia. Já disse que provavelmente não têm nada a ver um com o outro e é só uma coincidência. Até porque, não há nada correspondente nas histórias sobre a Terra-Média que nos indique um povo ou uma entidade específicos que possam estar representados por esses dois rostos.
Eu já tava começando a inventar teorias quando resolvi pesquisar primeiro. E achei esse artigo da Natania Barron sobre o figurino da série:
https://www.nataniabarron.com/2022/02/10/glimpses-into-the-costuming-of-the-lord-of-the-rings-the-rings-of-power/
Ali, ela menciona especificamente a "armadura" do Arondir e EXPLICA o que é o rosto: de acordo com ela, trata-se de um Homem Verde, um elemento decorativo comum na cultura celta, representado exatamente assim: um rosto barbado envolto em folhas. Lógico que eu fui pesquisar mais.
No resto da pesquisa, descobri que o Homem Verde é uma figura tão variada em conceito, aparência e localização quanto o Papai Noel, só que bem mais antigo: há Homens Verdes em pinturas e esculturas no Líbano, Iraque, Bornéu, Nepal, Índia, Chipre e Jerusalém desde o século II e vitrais e esculturas em igrejas no Reino Unido, Alemanha e Suíça desde o século XII. Ele geralmente representa um elo com o paganismo e é um símbolo de renascimento ou simplesmente decoração. De acordo com a cultura, ele pode ser uma representação associada a divindades ou entidades específicas, incluindo Osíris, Odin, Baco, até mesmo Jesus e o Papai Noel que eu já mencionei antes.
Resolvido o mistério. O que aconteceu foi que artistas diferentes, em épocas diferentes e para mídias diferentes, trouxeram um elemento decorativo do mundo real, análogo a uma flor-de-lis ou um pentagrama, para a Terra-Média e acabaram criando uma ligação não-intencional entre os personagens. Assim, podemos concluir que o hobbit possui, entre todas suas outras peças de Mathom, uma decoração em formato de Homem Verde feita pelos Moriquendi em alguma floresta da Terra-Média da Terceira Era. Possivelmente, o item mais valioso da coleção, por vir de um povo sobre o qual pouco se sabe.

sábado, 6 de novembro de 2021

Reminiscência Afetiva

Prática não-religiosa que revive a memória de conhecidos que faleceram.

A prática pode ser exercida através de reflexão individual, um momento sem duração determinada dedicado à lembrança dos que já se foram. Durante esse momento, memórias carinhosas são revisitadas, trazendo à lembrança mais uma vez a voz, o sorriso e a atitude daqueles que estão ausentes. É comum também que a reflexão se estenda para um momento de auto-aconselhamento, guiado pelos princípios das pessoas lembradas. É como se perguntas fossem feitas diretamente para eles e respondidas através das lembranças de seus atos.

Além da reflexão individual, a reminiscência afetiva também é comum entre grupos de pessoas. Quando o indivíduo lembrado fez parte da vida de mais de uma pessoa no grupo, ocorre uma partilha afetiva de memórias, que geralmente traz mais detalhes às lembranças, de diferentes pontos de vista. Essa colaboração enriquece e fortalece as lembranças dos entes queridos. A interação com outras pessoas que ocorre durante o compartilhamento de memórias também é extremamente eficaz para ajudar a lidar com sentimentos negativos e questões não-resolvidas.

Uma terceira forma de se praticar reminiscência afetiva é através de iniciativas que mantêm viva a memória da pessoa lembrada. Seguindo em frente com projetos ligados àquela pessoa, contribuindo com as mesmas causas, ou então passando adiante histórias para aqueles que não tiveram a oportunidade de conhecer o indivíduo lembrado.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Rei Arthur e os leitores de HQs da Idade Média

 


O que as pessoas liam e escreviam na Idade Média, quando ainda não havia HQs e super-heróis? Os poemas e canções de cavalaria da época ainda são bem conhecidos hoje em dia, principalmente aqueles em torno do Rei Arthur e sua Távola Redonda. O que talvez não seja tão popular são as características que estas histórias compartilham com nossas HQs atuais.

Terminei de ler Le Morte d’Arthur (1485), por Sir Thomas Mallory, um livro que por si só já mostra diversas peculiaridades da literatura da época. Não vou me prolongar sobre as estranhezas mais técnicas, como a grafia diferente das palavras, o uso incomum (hoje em dia) dos pronomes e a falta de aspas ou travessões evidenciando as falas dos personagens. O mais marcante nessa obra é a abordagem da história e como seus elementos são tratados.

Os inúmeros personagens (e bota inúmeros nisso - dá pra deixar o GRRM com inveja) sempre tem um nome e uma origem bem definidos, e só. Raramente há alguma descrição sobre sua aparência ou idade, e sua personalidade só é evidenciada em momentos críticos da história, quando presentes. Com isso, é fácil perder-se nas referências e na continuidade, quando algum dos personagens fica um tempo sem aparecer e ressurge na história. Bem parecido com o que acontece na Ilíada e no Silmarillion (nesse caso, propositalmente, já que a intenção da obra é ser um contemporâneo artificial das outras obras mencionadas). Até as listas de nomes são parecidas, igual ao Faustão com seus papeizinhos lendo os nomes das pessoas que vieram em cada caravana.

Mas e o que a obra tem a ver com HQs atuais? Talvez durante a leitura do texto, essa semelhança não fique evidente, mas ao terminar o livro e me aprofundar sobre sua origem foi que comecei, inevitavelmente, a comparar os dois estilos separados por séculos na história.

É apropriado dizer que o livro todo é uma grande compilação de histórias. Não se trata apenas do Rei Arthur, mas de diversos cavaleiros de sua ordem, e de suas aventuras solo. Em sua maior parte, elas nem lhe dizem respeito. Ele é apenas o elemento que liga todas as histórias. Sempre que um cavaleiro em alguma história diz pertencer à Távola Redonda, temos a reafirmação de que essas histórias todas acontecem no mesmo contexto. E apesar de estarem todas reunidas num mesmo volume, nesta edição, todas elas tiveram origens diferentes. Tratam-se de histórias tradicionais de pontos distintos da Europa, principalmente Grã-Bretanha, Irlanda e França. Algumas, inclusive, que precedem as histórias do próprio Rei Arthur. O que os contadores de história fizeram, ao longo do tempo, foi adaptarem estas histórias para que elas se encaixassem no mesmo universo compartilhado.

Se pegarmos, por exemplo, a história de Sir Percival, e analisarmos seu desenvolvimento, encontraremos diversas versões, reescritas e modificadas, desde o século XII. Na versão mais antiga de que se tem conhecimento, ainda estão presentes elementos celtas (a lança, o caldeirão e a espada) que mais tarde foram sintetizados e cristianizados no Santo Graal. Depois desta “primeira” versão, de Chrétien de Troyes, outros contadores (pelo menos 7 até o século XIII) tomaram as rédeas da história e criaram continuações e prólogos. E a cada acréscimo, a história se tornava mais próxima e relevante à história central do Rei Arthur e da busca pelo Santo Graal.

Os leitores da época não enviavam cartas aos editores demonstrando sua insatisfação ou desejos por histórias futuras. Em vez disso, os mais privilegiados conquistavam os favores dos próprios autores e encomendavam diretamente novas histórias com elementos específicos que eles queriam ver ali. O já mencionado Chrétien de Troyes, por exemplo, possivelmente escreveu Lancelot, o Cavaleiro da Carroça como uma encomenda para Marie de Champagne, que queria ver um caso entre o cavaleiro e a rainha Guinevere. Até então, Lancelot era um personagem de histórias da Bretanha ainda não relacionado à ordem de cavaleiros de Arthur.

Outra característica em comum entre a obra e as HQs é a atemporalidade das histórias. Os personagens centrais não demonstram sinais de envelhecimento, mesmo após serem pais (ou até avós), e suas histórias simplesmente continuam, continuam, até terem mais histórias do que seria possível em uma vida humana. Eles também não se modificam em sua essência. São arquétipos fixos, e cada vez que uma história nova surge, independentemente de onde ela se encaixe na trama ou do século em que tenha sido escrita, ela segue o arquétipo dos personagens.

O mais marcante de toda essa análise é a proximidade que percebi entre os leitores de hoje e os leitores do século XII. Os meios mudaram, os valores mudaram, mas o envolvimento com uma história que traz continuidade e que sempre pode apresentar um novo trecho continua. Novos autores continuam surgindo e dando sequência ao trabalho de seus predecessores, enquanto outros visitam obras clássicas e dão seu próprio toque pessoal, o que muitas vezes acaba tomando o lugar do original na aceitação dos leitores. Nunca teria imaginado que, a partir de um leitura com o objetivo de me aprofundar na literatura medieval e nas origens das lendas arturianas, eu teria chegado a uma análise literária de HQs e seus leitores contemporâneos.

sábado, 21 de dezembro de 2019

A diferença entre fé e otimismo

O otimismo é uma virtude livre de crenças; é o direcionamento do pensamento para um resultado positivo em uma situação de incerteza. Na grande maioria das vezes, ao se tratar de situações ainda não concluídas - como, por exemplo, ao aguardar o resultado de um exame, a resposta de uma carta de amor platônico, até mesmo o placar de um jogo de futebol - somos limitados por nossa percepção humana e não conseguimos ver todos os fatores que influenciam nesse resultado. Na verdade, não conseguimos ver quase nenhum deles. Portanto, não conseguimos acompanhar o desenrolar da situação, nem prever seu resultado. Só nos resta a esperança de uma conclusão satisfatória. Essa esperança nasce de nossas experiências anteriores e conhecimento adquirido; sabemos que situações semelhantes já foram concluídas com um resultado positivo, e isso indica a possibilidade de que agora aconteça da mesma forma. Assim, nos agarramos a essa ideia, a essa possibilidade. Queremos que o resultado seja positivo, muitas vezes não só para nós mesmos, mas para as pessoas com que nos importamos também. Portanto, quando ouvimos algo do tipo "Tenho fé que vai dar certo", é um exemplo de alguém exercendo seu otimismo, e não necessariamente, sua fé.
A fé não é sinônimo de otimismo. É um conjunto de crenças que projetam sentido e significado onde estes não encontram-se naturalmente. Nossa percepção da realidade é repleta de lacunas, decorrentes de nossos sentidos limitados. Não conseguimos acompanhar com detalhes todos os fenômenos da natureza, mas somos impelidos por uma necessidade humana de projetar algo nessas lacunas. E por toda a existência da humanidade, as lacunas foram sendo preenchidas por diferentes conceitos, decorrentes puramente da observação limitada e da criatividade. Um exemplo bem conhecido é o de homens da caverna que, por não conhecerem a complexidade do fenômeno de uma tempestade, atribuíam este evento à fúria dos deuses. Deuses que também eram fruto da observação precária e da criatividade. Não havia evidência direta que ligasse a tempestade à sua explicação de fúria divina. Havia apenas uma suposição que persistia como crença. Hoje em dia ainda há inúmeros exemplos de crença preenchendo as lacunas da explicação factual. Mitos de milênios atrás ainda são repetidos, os mesmos conceitos e explicações em que os povos da antiguidade acreditavam. E eles não são sustentáveis por si só. Não se pode comprovar sua veracidade, pois trata-se de ideias projetadas sobre fenômenos, e não conclusões tiradas deles. É aí que entra a fé: a opção por acreditar em algo insustentável no campo das evidências. Ou a opção por acreditar em uma dada explicação, mesmo havendo evidências de que aquela explicação não é sustentável. É distanciar-se dos fatos e ancorar-se no imaginário. É tentar trazer para a realidade conceitos que não passam de conceitos. A fé pode ser manifestada na forma de otimismo, ao se desejar a recuperação milagrosa de um enfermo, ou ao acreditar que um final feliz aguarda todos aqueles que tiveram uma conduta correta durante sua vida, mas também pode se manifestar de forma negativa ao condenar pessoas de uma crença diferente, ou ao justificar a crueldade com ensinamentos religiosos.
E é por isso que a ausência de fé não deve ser vista como uma característica negativa. O otimismo não depende da fé, e a fé não se limita ao otimismo. As virtudes humanas podem, e devem, existir livres de crenças, para que possam ser exercidas em todo seu potencial. O pensamento positivo pode existir em todos nós, até mesmo naqueles que não tem fé.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Dia de Finados


O dia vai chegando ao fim da mesma forma como começou: triste e vazio. Nos últimos anos, tem sido sempre assim. Não importa se o sol surgiu para expulsar as nuvens que perduravam há uma semana, não importa que o vento pareça refrescante para um fim de primavera; o sentimento é sempre o mesmo.
Pergunto-me incessantemente como outros conseguem lidar com a morte de uma forma satisfatória. Como conseguem superar a perda, a separação? Sei que é ingenuidade de minha parte, um misto de esperança e superstição, mas não consigo me livrar da expectativa de uma conexão. Olho repetidamente para a lápide, para a data cruel que marcou a destruição de nossa família, e para o restante do cemitério à minha volta. Vejo muitos visitantes, indo e vindo, mas espero ver algo mais. Espero ver aquele semblante reconfortante por quem nutri tanto amor.
Afinal, não é Dia de Finados? Não parece justo que pessoas separadas pela morte tenham uma chance de um reencontro neste dia? Carrego a frustração desta data de anos anteriores, mas ela não é suficiente para me tirar a esperança. Talvez hoje seja diferente. Talvez hoje eu tenha sorte. Só preciso ficar aqui mais um tempo, de braços abertos para um possível encontro. Mesmo notando que o sol já está se pondo e a noite se aproxima.
As noites. As noites são a pior parte. Se pelo menos eu tivesse a dádiva de uma visita. Só hoje. Um único momento, por mais breve que fosse, me traria uma satisfação enorme e me daria forças para encarar a noite. Mas a luz do dia desaparece por completo, trazendo-me a certeza da solidão.
E até mesmo essa me abandona com a chegada da noite. Um a um, os visitantes vão embora e os portões são fechados. Sinto todas aquelas terríveis presenças, já familiares, ao meu redor. A noite chegou e, com ela, chegaram as almas dos malditos para me atormentar mais uma vez. E assim como nos anos anteriores, nenhum visitante veio por mim.