domingo, 12 de abril de 2026

Texto não recomendado para quem tem fé monoteísta

 Muitas vezes, quando vejo pessoas passando por tragédias ou situações difíceis na vida, vejo também uma atitude recorrente: elas voltam-se para a fé, para a oração, pedindo por uma intervenção divina que resolva milagrosamente a situação, que possa reverter os males causados e que impeça ainda mais tristeza e sofrimento decorrentes disso. E minha mente completamente lógica acaba atraída por essa atitude tão diametralmente oposta. É um misto de perplexidade com uma vontade absurda de ajudar, através da lógica, de resgatar as pessoas do abismo da superstição, principalmente por saber que foi o desespero que as levou até lá.
    É comum, quando converso com pessoas que tem fé, eu me posicionar em um ponto hipotético no qual eu participo da conversa supondo que aquilo que a pessoa acredita é real. Não minto dizendo que acredito. Simplesmente desenvolvo a conversa como uma prática filosófica, deixando claro que aquela crença não me pertence e fazendo questão de utilizar a expressão “supondo que”, várias vezes ao longo da interação. Na maioria dos casos, a fé em questão se resume a deus. E como se sabe, na nossa sociedade, esse conceito acaba sendo bastante pessoal. Por mais que a pessoa que tenha a fé se identifique com uma religião específica, que por sua vez tem seu conceito de deus bem estabelecido, na prática, cada um acaba adotando uma interpretação pessoal de deus, que varia bastante de pessoa para pessoa. Mas algumas características se mostram constantes: quando falam de deus, se referem a uma entidade sobrenatural, superior, responsável por nós e capaz de direcionar os acontecimentos do universo de acordo com a sua vontade. E essa relação com deus levanta alguns profundos questionamentos para mim.
    Escuto com muita frequência a expressão “se Deus quiser”, até mesmo de pessoas que não acreditam em deus, devido à popularidade que ela adquiriu na nossa sociedade. Mas não consigo abstrair a sensação de passividade e submissão que a expressão passa. É uma frase utilizada em situações nas quais não estamos certos do resultado, quando queremos que algo dê certo, mas sabemos que há uma possibilidade de dar errado. E, por fim, essa resolução é colocada nas mãos de alguém acima de nós. Ao meu ver, existe mais uma camada de interpretação nessa frase, uma interpretação lógica. Ao mesmo tempo que é dito “se Deus quiser”, conclui-se também que, se deus não quiser, aquilo não vai acontecer. E esse ponto de conclusão pode gerar duas reações: uma, a mais comum entre monoteístas, cristãos, é a de aceitação, de acatar a vontade e o plano de deus. “Deus não quis, não há nada que eu possa fazer.” A outra reação, de recusa, seria surpreendente vinda de um monoteísta, cristão. Tenho a impressão de que ela se inspira mais em mitos politeístas, de deuses não onipotentes. É a determinação de não aceitar uma decisão divina, de querer algo tanto a ponto de encarar deus e dizer: “Se você vai colocar obstáculos no meu caminho com o intuito de impedir que eu consiga o que eu quero, faça o seu melhor, porque eu não vou desistir.” Ao meu ver, essa reação é tão mais inspiradora que a outra, tão mais esperançosa. Assim, por mais de uma vez, ao ouvir a frase “se Deus quiser”, me coloquei no ponto hipotético da outra pessoa e respondi: “mesmo se ele não quiser”. Na prática, esse posicionamento de não submissão, de não desistir, acaba gerando mais esforços da nossa parte, nos faz buscar mais caminhos, mais alternativas. O “se Deus quiser” é um ponto final. É o ponto em que as pessoas param de tentar, e muitas vezes quando ainda há o que ser feito. Então sou obrigado a dizer que eu ficaria muito mais feliz se eu ouvisse “mesmo se ele não quiser” de pessoas com fé também. Se é para terem uma fé, que seja então uma fé mais otimista e menos submissa.
    Outro ponto de questionamento são frases vazias geradas por uma fé cega. Voltando ao conceito de deus apresentado anteriormente, para a pessoa que tem fé, deus é responsável pelos acontecimentos do universo. Mas, convenientemente, essa responsabilidade costuma ser ignorada quando os acontecimentos são ruins. As redes sociais estão cheias de postagens dizendo “Deus é bom o tempo todo”. Adesivos de carro e até embalagens de alimentos de empresas pequenas repetem mecanicamente a frase “Deus é fiel”.  Onde está a bondade quando uma criança é violentada? Quando um criminoso sai impune de um julgamento? Onde está a fidelidade de deus quando uma pessoa vive uma vida inteira de devoção sem sair da miséria e do sofrimento? O argumento mais comum apresentado por pessoas que defendem a crença em deus é de que os planos dele não são compreensíveis para nós, meros mortais. E nesse ponto, pela perspectiva hipotética da existência de um deus, concordo completamente. Se existe um deus tão superior a nós e se ele tem um plano para o universo, tenho que concordar que esse plano não faz sentido para nós. Mas temos nossos conceitos bem claros do que é bom e do que não é, com base em nossos princípios e nossa empatia. E podemos dizer com todas as palavras que, dentro do nosso conceito de bondade, casos deploráveis como os exemplos que apresentei aqui definitivamente não são bons. Dizer o contrário é insistir contra a verdade, é tentar criar uma ilusão de uma bondade divina constante que não existe. Como seria perfeito se as pessoas dissessem: “Deus NÃO é bom o tempo todo.” “Deus pode não ser fiel.” Mais uma vez, se é para terem uma fé, que seja uma fé mais realista, que não ignore tanto a realidade em que vivemos.
    Por fim, chego à questão da oração. As pessoas que têm fé passam por momentos difíceis e, por costume, recorrem à oração no desespero. Durante a oração, elas pedem, ou até, frequentemente, imploram, para que seu deus interceda e forneça uma resolução desejada. E não levam em consideração quem foi o responsável - em sua fé - pelo momento difícil, acima de tudo. Pedem para que a mesma entidade que gerou o problema remova o problema, ou o amenize. Mas e o plano de deus? E a vontade inicial dele, ao gerar o problema? Essas perguntas nos deixam com algumas hipóteses, que trazem ainda mais perguntas. A primeira hipótese é que essa entidade supostamente superiora pode ser convencida de alterar seus planos através das súplicas dos fiéis, muitas vezes feitas sem um argumento mais forte do que evitar nosso sofrimento. Essa súplica não poderia ser prevista, e o problema assim evitado desde o início? Ou a súplica faz parte do plano? É então uma entidade que exige que se implore para atender pedidos? Isso a torna digna de adoração? A segunda hipótese, igualmente assustadora, é que deus não sabia que geraria sofrimento como consequência de sua decisão, e são as orações que o alertam para esse efeito. Então a entidade no comando do universo não é capaz de prever algo que nós, mortais, conseguimos? Retomando o ponto de vista politeísta, me parece mais sensato fazer uma oração. Um deus quis que algo ruim acontecesse, faz sentido pedir para que outro deus corrija aquilo. Mas limitar os acontecimentos a um único deus leva inevitavelmente a algum dos questionamentos apresentados aqui. Rezar para um deus único é implorar para que o responsável pela desgraça desfaça o que fez. É se humilhar frente a um poder opressor que decidiu intencionalmente causar um mal a alguém. Sei que não vou encontrar quem tenha a mesma opinião, mas minha reação em uma situação de calamidade, caso eu acreditasse em deus, não seria de oração. Seria de desafio. De confronto. De querer tirar satisfação com o responsável por aquilo, bradar para os céus em vez de me ajoelhar e implorar. Se for mesmo necessário acreditar em deus, isso não quer dizer necessariamente ter que concordar com esse deus.
    São esses questionamentos que vêm a uma mente que funciona de forma lógica e que desenvolveu princípios baseados na empatia e na vida em sociedade. E é essa a vontade de ver a atitude do resto da sociedade. Se a fé ainda é realmente tão necessária para a humanidade, ela precisa mesmo ser tão ilógica?

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