domingo, 17 de julho de 2016

Crônicas de dados e fogo

CRÔNICAS DE DADOS E FOGO
por Dave Gross

Muito antes de Crônicas de Gelo e Fogo, Martin ganhou fãs e elogios por trabalhos como A Morte da Luz (1977), Windhaven (com Lisa Tuttle, 1981), Sonho Febril (1982), e O Trapo do Armagedom (1983). Seu amor por quadrinhos (para não mencionar jogos) rendeu frutos quando ele editou a popular série Cartas Selvagens, e recebeu quatro prêmios Hugo, dois Nebula, um Bram Stoker e um Prêmio Mundial de Fantasia por histórias que vão desde ficção científica e terror até fantasia, um gênero coletivo que ele gosta de chamar "coisas estranhas". Para ver a bibliografia completa de Martin e muito mais, visite sua página em www.georgerrmartin.com.

George Richard Raymond Martin não é tão diferente de outros jogadores... exceto pela parte de prêmios de autor.
Nascido em 1948 em New Jersey, Martin demonstrou um talento precoce em escrever ao vender suas histórias de monstros para outras crianças por 5 centavos, o que sem dúvida ajudou a financiar seu recém-adquirido hábito de revistas em quadrinhos. Ele aumentou seus ganhos ao fazer sua primeira venda profissional para a revista Galaxy aos 21 anos. Depois de completar um mestrado na Universidade do Noroeste, Martin continuou a escrever como uma alternativa enquanto dava aulas de jornalismo até 1979, quando pôs-se a escrever em tempo integral e mudou-se para Santa Fe. Sete anos depois, ele entrou para a CBS para trabalhar primeiramente em Além da Imaginação e depois em A Bela e a Fera, série adorada pelos fãs. Depois de dez anos em Hollywood, ele uma vez mais pôs-se a escrever romances.
Lá ele começou a trabalhar a fundo em um projeto que havia começado anos antes, uma série de romances conhecida coletivamente como Crônicas de Gelo e Fogo. A saga mescla intriga política, drama de vingança e ação marcial com um hábil tratamento da magia do nível daquele outro autor de fantasia com um R duplo no nome. Seu primeiro volume, Guerra dos Tronos, provou que a fantasia épica ainda era vital e incentivou Anne McCaffrey a chamar a série de "fantistórica" por seus personagens e cenário autênticos. Com Duelo de Reis, tanto a audiência quanto o número de páginas cresceu em proporções colossais, e a tendência continuou com Tormenta de Espadas. Agora uma legião de fãs impacientes estão ansiosos pelo próximo volume, Festim dos Corvos.
Eles terão que esperar um pouco mais, admite Martin. Enquanto o livro ainda não está terminado, você pode ajudar a aliviar a dor da espera com amostras de alguns de seus capítulos-prólogo na edição 305 da Dragon. Ou, melhor ainda, continuar lendo para descobrir os pensamentos de Martin sobre escrita, história e jogos de interpretação.

A GRANDE HISTÓRIA
Com uma série que já se expande por três livros, cada um deles grande o suficiente para atordoar um lobo atroz, é difícil imaginar como George R. R. Martin mantém todas as famílias, alianças, eventos históricos, locais, e até mesmo nomes de espadas sob controle. Os fãs podem esperar que ele tenha uma ampla biblioteca de mapas e referências, mas ele diz que não é assim. "Tenho algumas anotações. Tenho alguns rascunhos e linhas do tempo. A  maioria ainda está entre minhas orelhas, que Deus nos ajude."
Tais admissões explicam porque um fã exigiu saber que planos Martin tinha feito para que outro autor terminasse a série num caso de seu derradeiro fim. Enquanto Martin se recusa a tentar o destino, sem se preparar para tal contingência terrível, ele promete que seus desígnios para o resto da história estão vivos e bem em sua própria imaginação. "De alguma forma, eu me lembro de Westeros e dos Sete Reinos melhor do que eu me lembro da minha vida real," ele diz. "Me lembro de detalhes sobre um personagem menor, mas não necessariamente de alguém que conheci na última convenção."
Escrever uma história tão grande quanto Crônicas de Gelo e Fogo é desafiador não apenas por sua extensão, mas também por sua complexidade. Cada volume anterior inclui pelo menos oito personagens pontos-de-vista, e o próximo promete ainda mais, incluindo os personagens no prólogo estendido. Ter tantos personagens focais permite que Martin mostre eventos por toda a parte de um grande mundo, mas isso pode ser arriscado. "O que um personagem faz obviamente afeta o que acontece com os outros personagens, e eles tem que reagir a isso," ele diz. "Então isso é um ato de malabarismo. Às vezes eu me sinto como se estivesse conduzindo uma carruagem. Eu comecei com dois cavalos, e aí eu tinha quatro, e agora tenho, tipo, dezesseis cavalos; todos eles querem ir em direções diferentes, e eu estou segurando as rédeas com todas as minhas forças. Mas, nas palavras imortais do Super Galo, 'Você sabia que o emprego era perigoso quando o aceitou.' Então, aqui estou eu."
Apesar de estar acostumado com rascunhos por causa de seus anos em Hollywood, onde eles são exigidos, ele não os faz para seus romances. "Tenho meu destino em mente," ele diz, "mas não sei necessariamente todas as curvas e desvios da rota que vai me fazer chegar lá. E às vezes os personagens o surpreendem. Eles o levam em direções diferentes que são mais ricas e mais gratificantes do que você havia pretendido."
"Infelizmente," ele acrescenta, "às vezes eles também o levam a becos sem saída. Esta é uma desvantagem do jeito que eu trabalho." Isso significa que às vezes Martin escreve longos trechos antes de decidir voltar e retrabalhar os eventos instigados por um personagem em ascenção, deixando capítulos inteiros de histórias que não se realizaram em seu disco rígido. Antes que você comece a ter esperanças de uma "versão do diretor" de Crônicas de Gelo e Fogo, Martin explica que talvez funcione desta forma para filmes, mas não para livros. "Estas coisas não são cenas removidas, e sim coisas que nunca aconteceram, ou coisas alternativas," ele explica. "Às vezes a história chega a voltar, e você usa o capítulo posteriormente no livro, ou usa partes dele, mas há uma boa quantidade de desperdício."
Ignorando os desejos de seus personagens mandões, Martin tem uma conclusão específica em mente para a história - incluindo o destino de cada um dos personagens principais. Ele admite que é possível mudar de ideia sobre o destino de um personagem antes do fim, mas insiste, "Não é possível me fazer mudar de ideia com uma carta de fã, então as pessoas que estão escrevendo para mim e tentando votar em um personagem ou outro - sempre fico feliz em ouvir o que eles tem a dizer, mas não sei se isso terá mesmo muito impacto na história. Isso não é Survivor. Você não pode votar pra alguém sair da ilha."
Como um amante de convenções e autor que é grato aos fãs, Martin sabe que não pode escapar completamente da influência externa. Ainda assim, ele aproveita a solidão de sentar-se sozinho na frente do computador enquanto esreve a história. Nesse ponto, ele diz, "Você tem que, tipo, esquecer sobre [os fãs] e esquecer sobre seus editores e editoras e agentes. Esquecer todas essas coisas e simplesmente seguir com os personagens, com a história, e o que eles estão dizendo que você faça. Essa é a voz verdadeira."
Esta voz verdadeira pode levar algum tempo a ser alcançada quando cada volume fica maior do que o anterior. "Sim, isso é um problema," ele diz. "Tormenta de Espadas estava justamente no limite de quão grande um livro pode ser. Ele foi dividido em dois na versão paperback na Inglaterra. A Bantam vai tentar conseguir a versão paperback barata em um volume, mas, meu Deus, vai ser um livro grande. Você vai ter síndrome de túnel carpal tentando segurá-lo na banheira."

OS QUE SE LEMBRAM DO PASSADO
Martin é um leitor tão voraz quanto é um autor prolífico. Entre suas matérias favoritas está história, que teve uma grande influência em Crônicas de Gelo e Fogo. "Eu queria escrever algo que estivesse mais próximo de ficção histórica," ele diz. "Eu até brinquei por um tempo com a ideia de não incluir nenhum elemento óbvio de fantasia. Por fim, decidi contra isso, e acabei incluindo os dragões e um pouco de magia, algumas coisas que estão relacionadas aos elementos tradicionais de fantasia - mas um número relativamente menor deles, comparado a algumas fantasias."
Embora os fãs tenham percebido ecos da Guerra das Rosas e da Guerra dos Cem Anos nos conflitos de Westeros, Martin tem interesse em muitos períodos históricos. "A maioria do meu interesse é nas eras pré-pólvora. Eu acho que a partir do momento em que as armas de fogo e os canhões e coisas do tipo aparecem, parece que eu perco um pouco do interesse. Então é a era das espadas e o que vem antes disso que são meus períodos favoritos."
Apesar de seu alicerce em autenticidade histórica, a saga de Westeros é inegavelmente uma fantasia, com elementos mágicos como dragões, os terríveis Outros, e a temida magia do deus vermelho R'hllor. A princípio, a magia foi tão sutil que parecia praticamente não-existente, mas isto está mudando. "Em cada livro, o nível de magia está subindo levemente, para que no final ele esteja maior. Alguns dos leitores de fantasia realmente fanáticos que estão lendo livros nos quais há magos lançando bolas de fogo a cada página não vão achá-la 'espetacular' nem no seu maior nível."
Martin acha que os elementos mágicos estão entre os mais difíceis de se escrever. "É muito difícil fazer isso bem. Eu tenho fortes sentimentos em relação à magia; eu acho que ela é usada de forma errada na maioria da fantasia. Até certo ponto, eu recorri ao Tolkien, e olhei o que ele fez, porque eu ainda acho que ele fez isso melhor do que qualquer um. Ele tem dragões, claro, e ele tem várias criaturas míticas, como o Balrog. A fantasia ruim trata os magos e outras criaturas sobrenaturais quase como super-heróis. Eles estão voando por aí, eles tem isso mágico e aquilo mágico. Gandalf e Saruman, seu poder é o conhecimento. Eles conhecem as coisas. Eles conhecem a história. Eles conhecem os saberes. Eles conhecem verdades antigas que outras pessoas já esqueceram, mas você não vê eles fazendo muito de magia de palco. Ao manter a magia sutil, ao mantê-la nos bastidores, ao não contar muito a respeito dela, eu acho que ela se torna mais poderosa. Eu acho que a magia deve ser mágica. Ela deve ser misteriosa e assombrosa. Você a vê e seus olhos... brilham."
O nível de magia é uma das maiores diferenças entre ficção de fantasia e mundos de jogos de fantasia. Às vezes, Martin acha que os autores cometem o erro de colocar convenções de jogos em seus mundos. "Há bastante fantasia agora onde eles desenvolvem sistemas de magia," ele diz. "Eu até recebo essa pergunta às vezes em convenções: 'Você pode nos falar um pouco sobre o seu sistema de magia?' Eu acho que isso é um erro. Isso só torna a magia em um tipo alternativo de ciência. Você pode ter diagramas de arames mágicos ali, e receitas mágicas onde você mistura essa quantidade de olho de sapo e essa quantidade de leite de virgem em pó, e você consegue esse efeito. Isso não é magia de verdade, é? Isso é só ciência que não funciona."

DIAS DE JOGO
Martin é um jogador de RPG há mais ou menos vinte anos, mais recentemente com um grupo que inclui os colegas autores Walter Jon Williams, Melinda Snodgrass, Vic Milan, e Jane Lindskold. Como muitos outros grupos de jogo, eles se encontram uma vez por semana, com interrupções ocasionais para viagens ou prazos finais de livros. Talvez seja chocante para jogadores de D&D, mas o sistema de escolha do grupo não é o sistema d20. Martin defende sua heresia:
"Quando eu comecei a jogar nos anos 80, nós jogávamos jogos diferentes. Nós jogávamos Morrow Project. Depois jogamos bastante Call of Cthulhu - esse foi um dos nossos favoritos durante anos - depois Superworld, que era um jogo de super-heróis. Por fim, ele deu origem à série Wild Cards. Eles eram todos divertidos, e nós tivemos muitos bons momentos com esses jogos, mas cada jogo tem seu próprio conjunto de regras. O que era chato nisso era que cada vez que você pegava um jogo, você tinha que aprender um conjunto diferente de regras. Aí apareceu o GURPS. Ele nos atraiu bastante, porque era um sistema que era bom para qualquer jogo."
O mestre de jogo de Martin é o colega escriba Walter Jon Williams, que tem uma campanha histórica que se passa no final da República Romana. "É um jogo muito realista. Não há elementos de fantasia. É quase parecido com os livros de John Maddox Roberts ou Steven Saylor. Diversas vezes, nós estamos resolvendo mistérios de assassinatos. Ou, quando isso não dá certo, estamos liderando exércitos nos campos de batalha ou lidando com problemas políticos, tentando preservar a República - e ao mesmo tempo avançar nossas próprias carreiras pessoais."
Não deve ser muita surpresa saber que um grupo de jogo que consiste principalmente de autores tende a enfatizar seus personagens sobre o combate. "Passamos noites inteiras sem rolar os dados. Nossos jogos pegam muito no lado interpretativo do jogo, com o Walter interpretando os personagens e nós interpretando nossos personagens, e essa é a diversão disso - a interação dos personagens."
Assim como todos os jogadores, Martin adora a chance de falar sobre seu personagem - ou melhor, seu personagem falecido. "Meu primeiro personagem era chamado Septimus Sempronius Gracchus," ele diz, garantindo que nós teremos que passar uma hora no Google checando a ortografia. "Havia dois políticos romanos muito importantes, os irmãos Gracchus. Eles eram radicais que queriam reforma agrária e concorriam à Tribuna; ambos foram assassinados. Eles eram tipo os irmãos Kennedy da Roma antiga. Septimus era um descendente deles, então ele também estava bastante em favor da reforma agrária. Ele era extremamente inteligente, mas era extremamente falante, como todos os meus personagens tendem a ser, porque eu tenho uma boca grande e gosto de falar. Roma tinha todo esse sistema de dever com seu patrono, e ele tinha isso de uma forma ainda mais exagerada. Infelizmente, os eventos levaram o pobre Septimus a uma situação em que ele tinha que trair seu patrono ou trair Roma. E não havia resposta em seu sistema ético, portanto como os romanos faziam, não tendo saída, ele caiu sobre sua espada."
Assim como todos os bons jogadores, Martin não culpa o GM por colocá-lo num beco sem saída. "Era uma situação que não podia ser salva, mas de alguma forma justa, considerando a política da época e a maneira como eu construí meu personagem. Mas foi traumatizante, porque eu adorava aquele personagem, e tinha jogado com ele por mais ou menos um ano e meio. Ele foi um grande personagem, e eu estava muito empolgado com ele, mas para ser fiel ao personagem, eu senti que ele tinha mesmo que fazer isso."
E, como todos os bons jogadores, Martin culpa seus colegas por não salvá-lo de seu destino precoce. "Os outros jogadores poderiam ter sido um pouco mais espertos em relação a isso. Eu tentei dar-lhes pistas, sabe. Septimus ficava passando e dizendo, 'Onde é o melhor local para esfaquear um homem para que não doa?' Ele escreveu seu testamento, e adotou o filho da irmã como seu próprio filho, e todas essas outras coisas preparando-se para a morte, mas nenhum dos outros personagens sacou, nem de longe, então todos eles ficaram muito chocados."
Assim como acontece quando ele escreve o fim de um personagem em Crônicas de Gelo e Fogo, Martin sabia que era o certo para a história, mas isso não quis dizer que seria mais fácil. "Foi difícil matar Septimus no jogo, e é difícil matar personagens na ficção quando você já investiu bastante neles e eles são algo em que você já trabalhou por muito tempo."

ESCREVENDO E INTERPRETANDO
Ainda pior do que a morte de um personagem de jogo foi escrever um evento sangrento em Tormenta de Espadas. Martin reconta com uma pesada tristeza: "Com certeza, o Casamento Vermelho no terceiro livro foi a coisa mais difícil que eu tive que fazer. Esse capítulo acontece mais ou menos na metade do livro, um pouco depois da metade - mas de forma alguma no final. Há centenas de páginas que o seguem. Ainda assim, foi o último capítulo que eu escrevi. Eu terminei tudo depois. Foi um capítulo muito difícil de se escrever."
Ver suas criações fictícias quantificadas para um jogo não preocupa Martin, mesmo ele sabendo que os designers devem às vezes adivinhar coisas que ainda não foram reveladas. "[Os mistérios] serão revelados pela primeira vez nos livros," ele diz. "Então os designers de jogos vão ter que dançar em volta disso." Martin já viu sua ficção ser traduzida para termos de jogo com o jogo GURPS Cartas Selvagens publicado pela Steve Jackson Games. Ironicamente, já que suas histórias de Wild Cards foram inspiradas em suas próprias experiências jogando Superworld.
Apesar de gostar tanto de jogos quanto de ficção, Martin garante não cruzar os rios. "Você tem que se lembrar que o jogo é um jogo e o livro é um livro, e eles não são a mesma coisa. Caso contrário, você pode se chatear bastante. Roger Zelazny sempre citava James M. Cain a respeito disso. Cain tinha um monte de livros feitos por Hollywood, e eles foram bem liberais com as mudanças feitas. Um entrevistador perguntou para ele, 'O que você acha do que Hollywood tem feito com seus livros?' E Cain respondeu, 'Hollywood não fez nada com meus livros. Está vendo? Eles estão bem ali na estante. Estão do jeito que eu os escrevi.' Os filmes são uma coisa separada. Roger sempre citava isso também, quando lhe perguntavam coisas do tipo, 'O que você acha de Damnation Alley?' Eu acho que faz sentido. Meus livros são meus livros, e vai ser interessante ver o que sai deles nos jogos, mas você não deve misturar os dois."
O verdadeiro perigo em misturar jogo e escrita é que um pode roubar tempo do outro. "Quando estou envolvido a fundo em um livro, eu posso jogar um jogo, mas eu não gostaria de administrar um jogo. Eu acho que ser o mestre do jogo é muito mais exigente. Quando eu fiz a campanha inicial de Superworld na década de 80 que acabou dando origem a Wild Cards, eu perdi algo em torno de um ano ali. Eu entrei nesse jogo tão a fundo que eu acho que Parris, minha namorada, estava quase chamando uma intervenção pra mim. Eu passava o dia inteiro no meu escritório inventando supervilões e rolando dados. Por fim, descobrimos um jeito de conseguir uns bons livros em cima disso e por coincidência ganhar algum dinheiro, mas estávamos só jogando obsessivamente por um longo período de tempo."
Se essa confissão não for suficiente para provar o crédito de Martin como jogador, ele tem uma confissão ainda mais reveladora a fazer. O cara é um min-maxer! Para criar a versão de jogo do Turtle, que se tornou seu personagem característico na série Wild Cards, Martin empurrou as regras do GURPS Supermundo até o limite. "Para fazer com que a armadura do Turtle chegasse na rigidez que eu queria naquele casco, para que os vilões não pudesse machucá-lo, e para aumentar sua telecinese até o poder em que ele pudesse causar um dano sério com ela, eu aceitei umas desvantagens bem pesadas, então o Turtle no jogo era basicamente um bebê deformado pela talidomida ali dentro daquele casco. Ele não tinha braços nem pernas - só nadadeiras. E ele era um anão, era meio-cego... ele ganhou pontos pra cacete! E isso produziu um personagem muito poderoso para a campanha de Superworld."
Isso tudo é normal e aceitável para uma campanha de supers, mas um personagem tão bizarro apresenta alguns problemas para um autor. "Eu queria escrever sobre um personagem bem mais realista, então eu criei o Tom Tudbury, que é em alguns aspectos um personagem bem autobiográfico, provavelmente bem mais do que qualquer outro que eu já tenha feito, porque ele cresceu em New Jersey - seu histórico no projeto - isso tudo é a minha própria vida. Então você pega um personagem que é bem mais sutil, bem mais balanceado, bem mais realista do que aquele personagem bastante extremo que foi criado para o jogo."

JOGANDO NOS SETE REINOS
Não é de se surpreender que Martin suspeita que uma boa campanha em Westeros seja bem parecida com suas próprias experiências de jogo. "Eu acho que um bom jogo nos Sete Reinos teria bastante do tempero de um bom jogo realista e medieval com o acréscimo de que você é livre para criar a história. O problema com ficção histórica é que se você já leu bastante sobre história, você sabe qual vai ser o resultado. Então você leu sobre a verdadeira Guerra das Rosas, e você sabe o que vai acontecer com aqueles dois príncipes na torre, e você sabe quem vai vencer a batalha de Bosworth Field. Não tem muito suspense aí."
O próprio GM de Martin tem que encarar estas questões a cada sessão. "Quando Walter está conduzindo seu jogo em Roma, ele tem que andar na corda bamba, porque nenhum dos nossos personagens realmente existiu na Roma antiga, mas nós estamos interagindo com pessoas que existiram, como Pompeu Magno e Júlio César e Cláudio e Catalina e Cícero, e alguns dos outros peso-pesados do final da República cujas ações e falhas e triunfos históricos são parte do registro histórico. Então o Walter está construindo um jogo ao redor destes eventos históricos. Até que ponto somos livres para mudá-los? O que acontece se matarmos Júlio César? O que acontece se vencermos uma batalha que era pra ter sido perdida, ou se perdermos uma batalha que era pra ter sido ganha? É uma apresentação de corda bamba.
"Um jogo de Gelo e Fogo teria a mesma estética, mais algumas outras coisas que você não tem, como dragões e a Muralha e os Outros, e as estações. Mas não teria essas limitações. Você poderia mudar a história, porque você está essencialmente criando a história à medida em que segue adiante."
Para grupos que preferem o combate, Martin sugere a Muralha como um excelente local para aventuras. Para jogadores que preferem intriga, que local seria melhor que Porto Real? Com o material de jogo nesta edição, leitores que sempre esperaram por um papel nos Sete Reinos podem finalmente participar da saga, que se entrega tão bem a jogos de aventura que jogos de Crônicas de Gelo e Fogo já começaram a aparecer. Um card game e sua primeira expansão já foram lançados e estão se saindo bem. Martin também assinou um contrato para um RPG que deve chegar às lojas de jogos até o final do ano. Algumas empresas propuseram fazer jogos de computador, mas nenhum acordo foi feito. Se e quando isso acontecer, Martin tem esperanças específicas para o tipo de jogo que ele será. "Eu não gostaria de vê-lo feito como um tipo de jogo do tipo hack-and-slash, onde monstros vem pulando e você fica batendo neles com sua espada e suas cabeças ficam voando com grandes poças de sangue. É exatamente isso o que eu não quero."
Em vez de uma experiência de ação impensada, Martin acha que interpretação requer uma abordagem mais sofisticada, não muito diferente da que ele assume em seu grupo de jogo. Ao ser perguntado o que é necessário para ser um grande jogador, ele diz, "Eu acho que esperteza, imaginação e habilidade de interpretar seu personagem."
Como isso difere das qualidades necessárias para ser um grande escritor?
Ele responde, "Talvez em nada."

GEORGE R.R. MARTIN FALA SOBRE JOGAR VS. LER
"Para ter uma ótima experiência de jogo, você precisa de um grupo de ótimos jogadores e um bom mestre e um bom sistema, assim como para um filme você precisa de um bom roteiro e um bom diretor e alguns bons atores. Todos os elementos tem que funcionar bem juntos. Mesmo um ou dois elementos ruins podem fazer com que a mistura não fique boa, e você acaba não tendo uma experiência tão ótima. Ler é um ato muito mais solitário: é o autor interagindo com o leitor. Eu acho que provavelmente fornece uma experiência mais profunda, porque, baseado em minha experiência em Hollywood, a colaboração pode ser legal, e você pode ganhar algumas coisas com isso, você pode trocar algumas ideias, mas no fim, em qualquer arte colaborativa, há um processo de aceitação que ocorre. Você quer X; ele quer Y; vocês decidem por algo intermediário. Ou é isso ou você tem um conflito de poder, que é sempre ruim. Você não tem esse tipo de pureza de visão que se tem quando um autor está no comando de tudo. Então eu gosto de dizer a respeito de meus livros, eu sou o roteirista, mas também sou o diretor, eu sou todos os atores, eu sou o cara dos efeitos especiais, eu sou o desenhista de cenários, eu sou tudo.  Eu estou te dando a experiência completa. Eu não estou só escrevendo um diagrama como um roteiro e dependendo de outras pessoas para preencher essas lacunas."

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Nada mais importa


So close, no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters

Never opened myself this way
Life is ours, we live it our way
All these words I don't just say
And nothing else matters

Trust I seek, and I find in you
Every day for us something new
Open mind for a different view
And nothing else matters

[...]

Never care for what they say
Never care for games they play
Never care for what they do
Never care for what they know
And I know [1]

     Quantas interpretações uma música pode ter? Como uma canção que foi criada como uma declaração para uma namorada é virada do avesso e se transforma em uma auto-afirmação sobre a busca por algo que não existe? Mais uma vez, uma janela do passado se acende e me atrai por uns instantes, me trazendo uma reflexão de quase 20 anos passados. Quantos mistérios o mundo tinha. Quantas descobertas, só esperando por mim. Havia sempre algo por trás de todos os elementos: as pessoas, os lugares, as histórias contadas; inúmeros segredos que eu poderia trazer à luz se eu me dedicasse a eles. A música acima foi o pano de fundo dessa época da minha vida. Uma época em que eu comecei a fazer mais perguntas, a correr atrás dos fatos, interrogar estranhos, buscar livros e mais livros, me esforçar para enxergar o que algumas pessoas diziam ver. E agora eu me pergunto se ganhei algo com isso. Obtive como resultado um conjunto de falhas que causou uma perda irreversível dos mistérios do mundo. Poderia isso ser uma vantagem, uma compreensão da realidade que impede a existência do desconhecido da forma como eu sonhava? É difícil responder a essa pergunta, principalmente porque a resposta pende para o lado negativo. O preço pela verdade pode ter sido alto demais.
     Descrever a trajetória completa dessa busca preencheria linhas demais, então vou me ater somente à época em que essa canção surgiu. Na falta de dados precisos sobre a data, posso dizer apenas que foi no final da minha adolescência, algo entre 1999 e 2000. O incentivo a querer saber mais veio de fontes diferentes e até mesmo despropositais. Uma delas, e talvez a mais importante, foi a insistência de minha família em me impor o espiritismo como religião.
     Os conflitos que tivemos e a dificuldade de me livrar disso não vem ao caso aqui, mas vale dizer que na época eram comuns cultos espíritas em minha casa e que minha presença era indiscutivelmente obrigada. Os ensinamentos e a doutrina nunca me desceram bem, assim como a ritualística e as preces. Mas o espiritismo tinha um lado extremamente atraente: os espíritos em si. Os médiuns afirmavam ver, ouvir, sentir e até incorporar espíritos dos mortos. Isso era legal demais pra ser ignorado!
     Quando eu sentia medo, sozinho no escuro, eu via vultos e ouvia ruídos, e não conseguia dormir. LÓGICO que eram fantasmas. Lógico que eles esperavam eu ficar sozinho pra vir me assustar. E esperavam ficar escuro. Luz acesa e companhia? Nem sinal deles. Assim foi minha vida durante muitos anos. De acordo com a visão espírita, isso era mediunidade. Eu podia perceber a presença deles, mesmo que só um pouco. Se nessas horas eu era capaz de percebê-los, por que não em outras? Por que não durante os cultos, onde estava todo mundo reunido com a luz acesa? Esse seria o momento mais propício, certo? Afinal, era um momento para eles nos visitarem e fluidificarem a água deixada ali. Eu nunca aticei meus sentidos tanto quanto durante os cultos. Eu mal piscava. As preces eram feitas, as leituras dos livros, mas não era ali que minha atenção estava. Era em volta. Era na porta de vidro do quintal. No canto das paredes. Atrás do sofá. No teto! Se algum deles resolvesse aparecer, não ia passar desapercebido por mim. Eu fitava até o rosto dos meus familiares, considerando a possibilidade de incorporação de algum deles.
     Acredito que, inconscientemente, eu inventava desculpas para não ter êxito. Eles eram bons em não aparecer. Eles tinham algum propósito secreto para não aparecer. Minha mediunidade precisava ser desenvolvida. E eu acabava achando que só iria ser capaz de presenciar os espíritos que apareciam para assombrar. E só na hora que eles quisessem. Só no escuro, quando eu estivesse sozinho. Apesar disso, as falhas sucessivas não me fizeram parar de tentar.
     A influência espírita foi além dos cultos em casa. Cheguei a comprar alguns livros a respeito, um sobre espiritismo no geral e um mais específico sobre a brincadeira do copo. "Copos que andam". Qual adolescente curioso não iria querer ler esse livro? O espiritismo como religião realmente não me interessava, mas eles pareciam saber tanto sobre espíritos. E eu queria tanto acreditar neles.
     Esse, portanto, foi o grande objeto do meu interesse: como eram, exatamente, os espíritos? Como eles interagiam com o mundo dos vivos? E com essas perguntas em mente, minha atenção estava extremamente voltada para esse assunto. Toda casa abandonada era assombrada. Todo cemitério era repleto de fantasmas. Toda família era visitada por parentes mortos. Os inúmeros filmes de fantasma assistidos na época também me tornaram um especialista no assunto. Um dia alguém iria encontrar algo concreto sobre eles, e esse alguém poderia ser eu.
     O espiritismo também trouxe mais dois elementos esotéricos à minha atenção: a reencarnação e o significado dos sonhos. Levando em conta tudo o que eu já disse até agora, parece desnecessário dizer o quanto esses dois assuntos também me atraíam. A ideia de recuperar memórias vindas de uma outra vida, vivida em outra época e talvez outro lugar, era fantástica. E cogitar viver experiências fora do corpo durante os sonhos parecia igualmente empolgante. O caldeirão do sobrenatural que fervilhava em minha mente já estava bem cheio, transbordando, na verdade.
     Um segundo fator influenciante foram minhas amizades. Dois de meus amigos cursavam psicologia e, na época, estavam extremamente decididos a seguir a área da parapsicologia. Mesmo eu tendo decidido seguir uma área diferente, eu fazia parte dos planos deles de montar um escritório de investigação paranormal. Enquanto muita gente da minha idade estava se matando de beber em festas, alguns até preocupados com gravidez e pensão, eu estava ali planejando ser um Caça-Fantasmas da vida real. Assim foi minha adolescência.
     Os dois amigos do "escritório de parapsicologia" não foram os únicos que compartilhavam meus interesses. Eu estava fazendo novas amizades com gente que também era extremamente curiosa com o sobrenatural. Pessoas aproximadamente da minha idade que tinham sua própria bagagem de leitura e casos ouvidos durante a vida, sobre experiências inexplicáveis e teorias antigas sobre o que não conhecemos a fundo. Era mais incentivo ainda de ler a respeito, de testar, de tornar os debates uma parte constante dos nossos dias. Até mesmo os membros do nosso círculo de amigos que não demonstravam tanto interesse nessa busca por respostas se reuniam conosco à noite, na frente do computador, com as luzes apagadas, para a leitura de histórias de fantasmas de sites hoje extintos. Tenho certeza que eles se lembram até hoje das principais histórias lidas e da música de fundo horripilante do site.
     O que até então havia sido uma obsessão pessoal passou a ser um hobby compartilhado. Eu via meus amigos se aprofundando nos assuntos e fazendo planos para o futuro e sentia que havia algo promissor aí. Que em grupo, talvez, nós fôssemos capazes de ver algo, de descobrir algo, de provar algo. Foi uma época de nossas vidas em que estávamos em total sintonia em relação a esses objetivos.
     Como amadores que éramos, em vez de nos inspirarmos em pessoas reais que faziam um trabalho semelhante na busca pelo sobrenatural, nós buscávamos nossos modelos na ficção. Líamos os mesmos livros, os mesmos quadrinhos, jogávamos os mesmos jogos e assistíamos os mesmos filmes e séries. Não posso dizer por eles, mas uma das séries que assistíamos acabou se revelando um grande reflexo do que eu vivia internamente. Uma série que trazia duas frases bem próximas do que eu sentia: "A verdade está por aí." (traduzido erroneamente e eternamente como "A verdade está LÁ FORA.") e "Eu quero acreditar."
     A série mostrava o empenho de um homem em buscar a verdade sobre visitas alienígenas à Terra e sobre o destino de sua irmã raptada, em meio a diversos casos sobrenaturais que fermentaram nossa imaginação durante anos. Mas o principal era a obsessão do agente em investigar e revelar algo para o mundo, além de para si mesmo. Sua primeira teoria em cada caso era sempre uma explicação cientificamente inviável, e ele quase nunca esteve errado. E o que eu fazia também era isso, eu sempre procurava projetar uma explicação sobrenatural em qualquer situação ainda não explicada. E era tão obcecado quanto ele em descobrir algo concreto.
     Agora, com todos os elementos devidamente apresentados, posso finalmente retomar o surgimento da canção-título em minha vida, esclarecendo como ela se encaixa, ainda que de uma forma distorcida, com todos esses tópicos.
     Fazendo parte de um grupo com os mesmos interesses, nós estávamos bem determinados a agir ativamente e começar a investigar, mesmo que informalmente. A oportunidade surgiu quando um amigo me convidou pra visitar sua família, em uma cidade pequena bem próximo de onde morávamos. Eu já havia ido lá com ele antes, assim como todos os nossos amigos, em ocasiões de férias e festas. Mas, dessa vez, nós iríamos com um propósito mais definitivo: perguntar e investigar sobre uma morte ocorrida na cachoeira onde costumávamos ir.
     Para não criar expectativas falsas, devo adiantar que este não é o tipo de história em que adolescentes bancando de investigadores acabam descobrindo alguma coisa importante. Não. Não descobrimos nada. Nem sobre a morte, nem sobre as bonecas que andavam sozinhas que também fomos investigar. Pois, como eu disse bem no começo, foi um caminho repleto de falhas e sem respostas conclusivas. Se houve algo estranho a respeito da morte do indivíduo (que eu nem nunca soube quem era), não ficamos sabendo. Mas fomos lá e tentamos, com toda a seriedade do mundo. Como se estivéssemos dando os primeiros passos de uma futura carreira. Um de muitos sonhos que ficou para trás.
     Nossa "base de operações", desta vez, foi uma casa vazia, que pertencia à tia de meu amigo e cujos inquilinos haviam acabado de desocupar. O único móvel era uma geladeira. Cada um de nós se apossou de um quarto e jogou seu colchão no chão. Havia mais amigos conosco ali, a maioria que havia ido apenas para aproveitar as festas da época na cidade, e todos ficaram nesta mesma casa. Um deles havia levado um CD com a música em questão, e foi ouvindo-a ali que eu realmente tomei gosto, tanto pela música quanto pela banda.
     O ambiente diferente já estava exercendo sua influência sobre mim. Era uma casa sem móveis, numa rua isolada, numa cidade pequena, até então cheia de segredos, e eu estava ali pra tentar descobri-los, com a ajuda de pelo menos um de meus amigos. E enquanto a música tocava, inconscientemente, eu associava alguns versos com o que eu estava vivendo.
     "So close, no matter how far" era sobre as respostas que eu queria. Cada passo que eu dava parecia ser o passo definitivo para encontrar alguma coisa. Às vezes, a falta de sucesso acabava me fazendo inverter a frase e dizer pra mim mesmo "So far, no matter how close". "Couldn't be much more from the heart", porque era algo que vinha de dentro mesmo, algo que me motivava a viajar e conversar com estranhos e tentar descobrir o que quer que fosse. "Forever trusting who we are" reforçava a ideia de grupo que tínhamos e "And nothing else matters" era um resumo de tudo isso.
     Sobre o próximo verso, sou obrigado a admitir que a associação foi pura culpa da minha interpretação errada do inglês. No lugar de "Trust I seek, and I find in you", o que eu acabei ouvindo foi uma frase sem sentido que soava como "Trust I seek that I'm finding you" e eu interpretava isso algo como "Tenho confiança que vou procurar e encontrar você", "você" sendo uma resposta, a verdade. Quando eu percebi, a música já estava em minha cabeça com um significado totalmente voltado para o que eu estava pensando. Totalmente diferente do que era para ela ser. Acredito que somente uma pessoa que nunca havia se envolvido sentimentalmente, como era o meu caso, poderia ter interpretado uma declaração de amor de uma forma tão distante assim.
     E hoje, ouvindo novamente essa música, eu me recordo de todos os elementos envolvidos. A casa, o propósito da viagem, o empenho e a expectativa em descobrir algo, as reflexões sobre as respostas inconclusivas das pessoas com quem falei, tudo isso é algo que não vai mais se repetir. Não dessa forma.
     Hoje, os conceitos são outros, a visão crítica é outra, a expectativa é completamente diferente. Ainda acredito em segredos escondidos, mas sobre coisas muito mais mundanas. Coisas erradas que as pessoas fazem em vez de fantasmas ou criaturas sobrenaturais entre as sombras. Explicações cientificamente plausíveis em vez de teorias fantasiosas. Nunca achei que eu fosse deixar de ser um Mulder e me tornar uma Scully. Mas foi inevitável. Não só com os assuntos apresentados aqui, mas com muitos, muitos outros que não foram abordados aqui também, devido à minha imersão cada vez mais profunda nas pesquisas. Não há uma verdade por aí esperando para ser descoberta. Pelo menos, não uma verdade sobrenatural. Eu quero acreditar, mas fica cada vez mais difícil. Considerando os grandes mistérios do mundo, acho até que não sobrou mais nada em que eu ainda queira acreditar.
     E a dúvida permanece: valeu a pena?

[1] Tão perto, não importa o quão longe
Não poderia ser muito mais do que isso vindo do coração
Para sempre confiando em quem somos
E nada mais importa

Nunca me abri dessa forma
A vida é nossa, vivemos do nosso jeito
Todas essas palavras que eu simplesmente não digo
E nada mais importa

Confiança eu busco, e encontro em você
Todo dia algo novo para nós
Mente aberta para uma visão diferente
E nada mais importa

[...]

Nunca ligo para o que eles dizem
Nunca ligo para jogos que eles jogam
Nunca ligo para o que eles fazem
Nunca ligo para o que eles sabem
E eu sei

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Crônicas da Espada
Uma história informal da ficção de espada-e-feitiçaria

Por Lin Carter



Capítulo 1 - Reinos da Aurora

   Qualquer história da ficção de espada-e-feitiçaria é inevitavelmente tentada a começar com Robert E. Howard, pois ele foi o primeiro escritar a cristalizar os elementos da fantasia heróica em uma forma distinta, facilmente reconhecível, algo novo e empolgante.
   Mas as raízes de espada-e-feitiçaria datam de uma época bem antes de os primeiros fios da meada no gênero da fantasia heróica aparecerem nas lendárias páginas de Weird Tales, no sentido de que datam do início da própria literatura, pois o indômito herói guerreiro no estilo Conan que vaga pelo mundo pré-histórico enfrentando dragões e demônios, monstros e magos, tem seu protótipo em São Jorge e Sigfried, em Beowulf e Hércules. Uma parte mais intrínseca das tradições de literatura moderna de fantasia, porém, são as fábulas morosas e belamente trabalhadas escritas por Lorde Dunsany, soldado Normando-Irlandês, poeta, esportista, dramaturgo e viajante. O primeiro livro de Lorde Dunsany sobre estas fábulas, Os Deuses de Pegana, apareceu em 1905; entre esta data e 1915, ele publicou oito estreitas coleções de fantasia, que são, com várias remoções, as progenitoras diretas das histórias heróicas Howardianas.
   Os contos de Dunsany originaram-se a partir das histórias fabulosas da Grécia e de Roma, tais como os contos de viajantes de Heródoto e Plínio, cruzadas com a paternidade de As Mil e Uma Noites dos contos orientais, com uma certa mistura de lendas e épicos heróicos medievais. Muitas dessas raízes são, sem dúvida, muito oníricas e idílicas para terem influenciado a espada-e-feitiçaria em um sentido que não seja periférico. Outras convergem mais de perto no estilo Howardiano. Um bom exemplo disto é "A Fortaleza Invencível, Exceto por Sacnoth", em A Espada de Welleran (1908), no qual o herói Leothric mata o dragão Tharagavverug e forja a espada encantada Sacnoth a partir de seus ossos indestrutíveis, para com eles matar o mago maligno Gaznak. Um outro bom exemplo pode ser visto em "O Tesouro dos Gibbelins", um conto do Livro das Maravilhas (1912), no qual o cavaleiro Alderic tenta opor-se aos devoradores de homens Gibbelins e acaba em um final infeliz.
   Os pequenos contos de Lorde Dunsany sobre reinos fabulosos e distantes "na Beira do Mundo," que se encontram em terras "além dos Campos que Conhecemos", são obras-primas inigualáveis de pura fantasia. Uma coleção destes oito estreitos livros forma a fundação indispensável de qualquer biblioteca de fantasia; podem ser relidos infinitamente, o especialista se encontra retornando a eles de novo e novo ao longo dos anos.

   H.P. Lovecraft foi um grande admirador do fabulário de Dunsany. Mesmo antes de ter a empolgante emoção de ouvir Lorde Dunsany ler seus trabalhos em Boston durante uma de suas turnês americanas, o mestre do macabro já estava experimentando formas narrativas e estilística de prosa praticamente idênticas. O impacto de ver e ouvir Dunsany pessoalmente fez com que Lovecraft entrasse precipitadamente em um período de criação de ficção puramente Dunsanyana, uma era que começou em 1919 e terminou em 1926 com um romance abandonado chamado A Busca Onírica pela Desconhecida Kadath. Durante este período de oito anos, Lovecraft produziu um corpo considerável de obras, muitas das quais mostram claramente a influência que Dunsany teve em suas tramas, personagens, cenários e estilo de prosa. "Polaris," "A Perdição que Veio a Sarnath", "O Navio Branco", "Os Gatos de Ulthar", "Celephais" - conto após conto jorravam dele. Hoje ele é muito mais conhecido por suas histórias posteriores dos Mitos de Cthulhu; o ciclo anterior das Terras Oníricas, porém, ainda tem seus admiradores, e eu entre eles.
   Logo depois, Lovecraft fez sua primeira venda ("Dagon") para uma revista pulp recém-lançada chamada Weird Tales. Sua primeira história nesta, que era a maior das pulps, apareceu no primeiro ano da revista, 1923. Sua popularidade cresceu bem rápido entre os leitores da Weird Tales até que por fim ele se tornou unicamente o mais popular dos escritores que contribuíram com a revista. (Ainda publicada hoje, nenhum escritor da Weird Tales em seu meio século de existência removeu-o de seu trono.)
   Começando em agosto de 1922, Lovecraft começou a corresponder-se com o recluso artista, poeta, escultor, tradutor e escritor de ficção da Califórnia, Clark Ashton Smith, no qual ele descobriu um espírito semelhante. Lovecraft implorou para que o editor da Weird Tales solicitasse algum trabalho de Smith, e com a edição datada de agosto de 1928, Smith começou a aparecer nas páginas desta revista.
   Lovecraft era então um proselitizador: ele adorava incentivar seus livros e escritores favoritos para seus correspondentes, como é provado por suas cartas publicadas. Se Smith já não tivesse descoberto Dunsany por si mesmo antes que sua amizade com Lovecraft começasse, ele teria descoberto seu caminho até ele através das recomendações entusiasmadas de Lovecraft. A primeira história de Smith na Weird Tales foi "O Nono Esqueleto", publicada em setembro de 1928. Este primeiro conto, e os que o seguiram, não mostravam influência Dunsanyana, nem mesmo de Lovecraft. Mas com "O Último Encantamento", na edição de junho de 1930, a dupla influência começou a se mostrar.
   Este foi o primeiro ciclo de histórias de Smith que se passava em Poseidonis - "a última ilha da Atlântida submersa" - e foi rapidamente sucedida por "O Conto de Satampra Zeiros", a primeira de várias histórias passadas no continente pré-histórico de Hiperbórea, e "O Império dos Necromantes", situada no continente do futuro longínquo de Zothique.
   Lovecraft ficara fascinado com a invenção literária de Lorde Dunsany de criar um ambiente imaginário para seus contos fantásticos. Quando o autor cria completamente a geografia e história dos reinos nos quais suas histórias se passam, ele tem uma liberdade imaginativa maior do que teria se estivesse confinado a cenários puramente históricos. Smith percebeu isso instantaneamente, e voltou-se para Atlântida e Hiperbórea e outros países imaginários, que os ocultistas supunham que tivessem dado origem a civilizações pré-históricas na era da aurora, muito antes dos princípios da história.
   Suas histórias são diferentes do ciclo Dunsanyano de Lovecraft por serem mais aventurosas, mais preocupadas com heróis em buscas, como o jovem guerreiro Tiglari em "O Labirinto de Maal Dweb", o ousado e malicioso Satampra Zeiros, ou o valoroso Ralibar Vooz, cuja busca é detalhada em "As Sete Maldições". A linhagem literária de descendência destas histórias, de Dunsany a Smith, e também de Dunsany a Lovecraft e a Smith, pode ser facilmente traçada nos nomes inventados nestas histórias, que recordam sem dúvida dos nomes caracteristicamente Dunsanyanos.

   A invenção de mundos imaginários é um complicado problema de artesanato. Por um lado, é mais fácil criar o cenários de suas histórias do que usar locais historicamente familiares, como a Babilônia ou o Egito, porque fazer isso não requer pesquisas cansativas. Por outro lado, certas dificuldades se apresentam: o leitor vem até uma aventura histórica que se passa no antigo Egito, ou em outro lugar, já equipado com um conhecimento e informação consideráveis sobre o período, adquiridos através de sua leitura de histórias semelhantes. Mas um leitor visitando a Lomar ou Sarnath de Lovecraft, ou a Zothique ou a Hiperbórea ou a Xicearph de Smith, não sabe nada destes mundos exceto o que seus criadores se importaram em passar para ele.
   A tentação acaba sendo passar bem pouca informação (como nas histórias de Elric de Michael Moorcock, que meio que flutuam livres no tempo e espaço, sem uma âncora narrativa para prendê-las firmemente à Terra Cognita, aos Campos que Conhecemos), ou apresentar ao leitor bem mais informação do que ele precisa ou quer (como, por exemplo, no recente romance de Philip José Farmer, Hadon da Antiga Opar; ou, até mesmo, O Senhor dos Anéis, que lida bastante com calendários, alfabetos, mapas, genealogias, e outras informações de cenário essencialmente supérfluas).
   Ao escolher algo bem próximo da fábula ou lenda ou conto de fadas, como Dunsany fez, bem poucos detalhes de cenário são necessários ou desejados. Afinal, "Aladdin e a Lâmpada Maravilhosa" não nos dá informações históricas sobre as dinastias da China, e "Sindbad, o Marinheiro" dispensa completamente os mapas das sete viagens.
   Quando Lovecraft voltou-se para a criação dos reinos de fantasia Dunsanyanos, ele trabalhou próximo ao estilo e padrão das lendas e mitos. Clark Ashton Smith, por outro lado, estava escrevendo algo muito parecido com as histórias atuais, com pessoas reconhecidamente reais tentando lidar com perigos e problemas reais, dando um passo para diferenciar-se do fabuloso. Uma tentativa é feita para ancorar as histórias na realidade. É possível, por exemplo, organizar os contos de Smith sobre Zothique ou Atlântida ou Hiperbórea em ordem cronológica baseado em evidência interna, algo que não pode ser feito com Lovecraft, nem, como vem ao caso (exceto aqui ou ali) com Dunsany.

   Quando Robert E. Howard (1906-1936) chegou na cena, ele trouxe um sentido de realismo muito mais forte para seus cenários do que qualquer de seus precursores havia feito. Eles tomavam uma visão romântica da pré-história, enquanto ele era sinistramente - até mesmo amargamente - realista. Os personagens em Smith e Lovecraft encontram-se com sinas irônicas ou poeticamente justas, e encontram-nas com graça. O mesmo não acontece com Howard! Suas histórias fedem a sangue e sujeira e suor; Conan pode ser maior que a própria vida, mas ele não é um herói onírico partindo em buscas de idealismo romântico. Ele é um mercenário sombrio, lutando por pagamento, aventurando-se porque precisa, esforçando-se para manter-se vivo em um mundo lindo e bárbaro onde as pessoas se machucam e até mesmo heróis podem ser derrotados e tudo não necessariamente termina bem no final.
   Howard, um truculento e musculoso texano, vendeu sua primeira história para a Weird Tales quando tinha quinze anos. Esta história era chamada "Lança e Canino", e apareceu na edição datada de julho de 1925. Era um conto sobre homens das cavernas, e ele o seguiu com "Cabeça de Lobo" no ano seguinte, um tipo de capa-e-espada histórico do tipo que geralmente associamos com Rafael Sabatini.
   Howard havia sido nutrido por Burroughs e Haggard e Mundy e Rohmer, pelos contos cossacos de Harold Lambs e os romances de Robert W. Chambers sobre as guerras da França e dos índios do estado de Nova York. Ele realmente pertencia às páginas da Argosy, e queria mesmo escrever contos históricos. Mas descobriu que era impossível lançar isso no mercado. Um dos motivos era que ele estava em competição direta por espaço nas páginas da Argosy com todos aqueles autores mais velhos e bem mais celebrados, sem contar Jack London e James Oliver Curwood.
   Portanto, ele fixou seu olhar na Weird Tales e começou a vender-lhes histórias de altas aventuras com apenas o suficiente de incidentes sobrenaturais ou magia negra para torná-las qualificáveis para o que era, afinal de contas, uma revista de fantasia estranha.
   Smith, Howard e Lovecraft, os três maiores de todos os regulares da Weird Tales, conheciam um ao outro, eram bons amigos e correspondentes constantes, e tinham o agradável hábito de ler as histórias um do outro em manuscrito - algumas vezes, anos antes de tais histórias realmente chegarem a ser impressas. Isto torna tanto fácil quanto difícil apontar exemplos de influência entre eles, porque, enquanto podemos facilmente concluir que as histórias de Howard sobre o Rei Kull foram influenciadas pelos próprios contos de Atlântida de Smith, não podemos provar pelas datas, já que tudo o que temos são as datas das publicações.
   Porém, em 1929, Howard vendeu sua primeira história de um novo ramo para a Weird Tales. Era chamada "O Reino das Sombras", e apresentou em forma impressa pela primeira vez um selvagem andarilho atlante chamado Kull.
   E o gênero chamado espada-e-feitiçaria nasceu...

A seguir: Um Rei Chamado Kull.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Segunda Chance





Daniel sentou-se no chão, encostado na parede, coberto de suor.  A arma tremia em sua mão e ele encostou-a rapidamente em sua cabeça. Se ela disparar por acidente, que não acerte o alvo errado. Ofegante, ele repassava os últimos momentos em sua cabeça, para evitar que mudasse de ideia. A despedida da namorada, o desprezo dos pais, a falta de reconhecimento por seu trabalho. É, não restava mais nada mesmo. Além do mais, a morte trará fama. Pelo menos havia sido assim com tantos outros pintores antes dele.
Após respirar fundo pela última vez, ele fechou os olhos e apertou o gatilho.
O vazio que se seguiu era indescritível. Nada de dor, sofrimento, sentimentos ruins, nada. E então uma batida. Mais uma. Era o seu coração, ainda batia forte, como se ignorasse o que acabara de acontecer. Lentamente, Daniel abriu um olho e, enquanto reconhecia o quarto onde estava, notou que estava sentado na mesma posição, com a arma ainda encostada em sua cabeça. Mas bem na sua frente havia um homem.
Seria difícil tentar descrevê-lo. Suas feições não tinham nada de memorável. Sem barba, sem bigode, cabelo curto, um homem comum com roupas comuns. “Daniel?” ele disse. “Pode me ouvir?”
Completamente perdido, Daniel deixou o braço cair devagar, tirando sua cabeça da mira da arma. O Homem tornou a abordá-lo. “Está tudo bem. Eu vim para lhe mostrar algo.” Estendendo a mão, ele fez sua oferta. “Venha comigo.”
Tremendo mais que um pinto, Daniel aceitou a mão estendida e levantou-se. Percebeu que o Homem era pouca coisa mais alto que ele. “Vamos dar um passeio. Aproveite, pois ninguém poderá nos ver.”
No instante seguinte, o quarto em que eles se encontravam já era outro. Um quarto de garota, com toda a decoração que se espera encontrar em tal lugar. Deitada na cama, agarrada em um jacaré de pelúcia, a Namorada chorava ao telefone. “Eu não queria que fosse assim, mas ele tava achando que eu tava à disposição dele. Que eu vivia por conta dele. Daí eu tinha que fazer isso pra ele abrir o olho. Mas dói tanto. Eu não consigo parar de pensar em como ele deve tá se sentindo agora... é, é o que eu espero.” O choramingo foi interrompido por uma leve risada. “Já tô imaginando como vai ser quando a gente voltar.”
Tomado de assombro, Daniel olhou para o Homem, que apenas sorriu para ele com afeição. “Ainda há mais para ser visto.”
Quando olhou de volta para a cama, o quarto já não era mais quarto. Agora era a cozinha de casa, com o Pai e a Mãe sentados à mesa. E a Mãe dizia: “Acho que você pegou pesado com ele dessa vez. Tudo bem que ele não tem andado na linha, mas... você sabe como ele se deixa levar pelo que ouve. E parece que ele ainda se desentendeu com essa namorada nova. Isso me preocupa.” “É... tá certo. Vou lá falar com ele. Tentar explicar que a gente só quer o bem dele.”
Fazendo jus à sua descrição dada pela Mãe, Daniel chorou. E desejou que eles o vissem agora, que falassem com ele ali, naquele instante. Mas alguém segurou-lhe pelo ombro, e virando-se, ele viu o Homem, ainda sorrindo. “Ainda não terminamos.”
A geladeira, a pia e a mesa deram lugar a um conjunto de cavaletes exibindo suas pinturas. Uma senhora examinava atentamente um dos quadros, o Aposentado. Após alguns instantes de observação, ela suspirou e deixou cair uma lágrima. Recompondo-se, procurou o responsável pela exibição.
Daniel, de olhos arregalados, agarrou os braços do Homem e gritou: “Eu entendi! Eu entendi! Agora eu vi tudo o que eu tenho e não sabia. Pode me levar de volta. Eu não vou mais apertar o gatilho.”
E então ele estava de volta, sentado no chão do quarto, suando feito um porco, com a arma na cabeça. E o Homem estava à sua frente. “Além de cego, você é tolo, Daniel. Tudo o que eu lhe mostrei não foi para fazer você mudar de ideia. Foi para que você soubesse o que perdeu. Você já puxou o gatilho.”
E então toda a dor e o sofrimento que ele esperara antes vieram de uma só vez, em uma fração de segundo que, para ele, durou uma eternidade.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Além da Fronteira da Névoa


            A lua cheia iluminava a velha estrada que rumava da pacata cidade de Karg à capital de Darkon, Il Aluk. E nesta estrada, ignorando os perigos da noite, caminhava uma figura solitária. Suas botas, gastas e sujas, atingiam o chão silenciosamente à medida em que ele avançava pela estrada. Os restos de sua capa rasgada balançavam com o vento, e seu rosto se encontrava totalmente coberto por um capuz, deixando à mostra apenas os longos cabelos loiros. O medo da noite havia abandonado o viajante, que lutava com muitas perguntas e poucas respostas em sua mente. O cheiro do mato trazido pelo vento o remetia a antigas memórias de uma terra distante e fazia renascer em seu coração o medo de nunca vê-la novamente.
"Dois anos", ele pensava, "dois anos longe de minha terra, de minha gente, e de tudo que foi feito pelos deuses, abandonado em um reino sombrio nos confins do mundo." O cheiro que vinha dos bosques à beira da estrada o fazia lembrar das florestas de seu lar, mas havia algo de diferente no aroma destes bosques. Uma leve fragrância que diferenciava estas árvores das árvores de Cormanthor, onde ele havia nascido e crescido, apesar de serem aparentemente as mesmas árvores. Era um odor de maldade, de perversão. Estas eram as únicas coisas que ele podia associar ao que cheirava.
Ele sabia dos perigos que espreitavam por estes bosques, mas havia aprendido a lidar com eles. As feras da floresta não representavam mais perigo, uma vez que ele aprendeu como acalmá-las, e a única coisa com que ele se preocupava era com os filhos da noite. Assim eram chamadas as criaturas que vagavam pelas ruas e estradas após o pôr-do-sol, e que povoavam os pesadelos do povo de Darkon. Ninguém sabia muito sobre sua natureza, e as lendas populares apenas ajudavam a manter o mistério em torno de tais seres. "Vampiros", alguns diziam, e "lobisomens", outros acreditavam, mas o que importava para o simples povo de Darkon não era o nome dos seres, e sim, o medo que eles traziam às cidades. Não era raro um corpo ser encontrado pela manhã, morto sem razão aparente. Simplesmente privado do direito de viver, sem marcas, ferimentos, ou sinais de doença. Apenas morto. Os físicos e estudiosos diziam que estes pobres infelizes sofriam do coração, mas eram desmentidos pelas famílias dos falecidos. E cada novo caso sem explicação contribuía para aumentar o medo e a superstição.
Subitamente, um ruído no mato chamou a atenção do andarilho e o fez esquecer momentaneamente seus pensamentos. Havia alguma coisa naqueles arbustos, ele tinha certeza. E não era um animal, pelo tamanho do vulto que ele avistou. Ele cerrou um pouco os olhos para ver melhor, e algo o surpreendeu, fazendo seu coração parar por um instante, como se algo estivesse errado. Ele notou que o bosque estava em silêncio à volta daquela figura, pois ele era do povo dos elfos, e possuía o dom de perceber melhor os sons à sua volta. E ele percebeu que os únicos sons vindos do bosque estavam distantes do vulto, até mesmo os insetos noturnos que não fogem à presença de outros seres maiores.
O brilho da lua refletiu-se na espada desembainhada enquanto ele se aproximava dos arbustos, olhando atentamente na direção do vulto. Ele então conseguiu visualizar os olhos daquela criatura, que tinha a forma de um homem, mas andava curvada e arrastando-se, porém, de uma forma rápida, que não combinava com seus movimentos. Os olhos eram amarelos como os olhos de um lobo, e estavam olhando em sua direção. Naquele momento, o elfo se conscientizou sobre a natureza daquele ser. Ele tinha a certeza de que não era algo vivo, mas também não estava morto. Morto-vivo. A descoberta fez o sangue em suas veias correr mais rápido, e ele deixou de lado todo o cuidado que estava tendo até aquele momento e adentrou o bosque impetuosamente.
A criatura não esperou a chegada do inimigo e saltou sobre ele como um animal. Neste momento, a luz da lua o atingiu, e o elfo pôde ver por um breve instante a aparência do morto-vivo. Seus cabelos eram escassos e havia feridas antigas por toda sua pele. Suas roupas eram trapos que pareciam estar ali apenas por não terem sido retiradas, não demonstrando nenhuma utilidade. Suas unhas haviam se tornado garras, e estas cortaram o capuz que cobria o rosto do guerreiro. Sua reação foi imediata: sua espada cortou o ar, e um dos braços podres caiu no chão, revelando um sangue escuro e malcheiroso. A criatura não demonstrou ter sentido o golpe, e teria continuado seu feroz ataque se a espada élfica não atacasse novamente. Desta vez, a cabeça semi-decomposta caiu ao chão, seguida do corpo.
O elfo ainda ficou por alguns instantes, parado em frente ao corpo decapitado, questionando-se sobre a criatura. Não era apenas um corpo animado, ele pensou. Este movia-se como uma fera selvagem, e havia expressão em seus olhos, o que ele nunca havia visto em um servo morto-vivo. Um outro barulho nas profundezas do bosque interrompeu suas conclusões: desta vez era um gemido, mais vívido, de alguém que ainda respirava. Ele correu instintivamente na direção do som, esperando encontrar alguém ferido pela criatura que ele havia derrotado.
Quando chegou ao local de origem do ruído, percebeu que estava certo. Caído ao pé de uma árvore, havia um homem caído de bruços, com uma espada quebrada ao seu lado. Suas roupas eram de qualidade, porém bastante sujas de terra e sangue, e os ferimentos em seus braços e costas podiam ser vistos claramente, ferimentos de mordidas e arranhões. O homem levantou um pouco sua cabeça e olhou na direção do elfo. Ele pareceu satisfeito com sua presença, demonstrando um esboço de sorriso de sua boca ensangüentada. O elfo se aproximou, e já se preparava para tratar de seus ferimentos, quando o homem ferido murmurou algumas palavras, interrompidas por engasgos e tosses:
-         Seu tolo... agh... é uma... emboscada...
O elfo levantou-se de um salto e começou a recuar a partir do lugar onde estava o homem caído, olhando rapidamente para todas as direções e procurando ouvir algo que o alertasse da presença de atacantes. Então ele percebeu movimentos em toda a sua volta. Ele estava cercado. Cerca de dez mortos-vivos semelhantes àquele que ele derrotara saíam das entradas sombrias do bosque e fitavam-no com olhares famintos. Por um breve momento ele pensou que este tipo de morto-vivo matava para alimentar-se. O sombrio grupo avançava em sua direção enquanto ele recuava, embainhando a espada e preparando o arco. Antes que eles pudessem dar dois passos, duas flechas voaram entre eles e acertaram dois deles, mas não foi o suficiente para derrubá-los. O elfo recuava sem olhar para onde estava indo, e acabou batendo suas costas em uma árvore. Antes de virar-se e contornar o tronco, ainda disparou uma última flecha, que acertou entre os olhos de um que já havia sido atingido, eliminando-o. Os outros passaram por cima do corpo do semelhante caído, sem demonstrar reação à sua segunda morte, e também contornaram a árvore, procurando por sua caça. Mas, do outro lado do tronco não havia nada.
Os mortos-vivos mostraram-se surpresos, procurando e farejando. Um deles, que estava mais próximo da árvore, levou um chute na nuca e caiu sobre a ponta de um galho quebrado numa árvore próxima. Ainda se mexia, mas estava preso ao galho. Os outros então viraram-se e viram o elfo saltando de um galho mais alto da árvore entre eles, acertando dois deles com sua espada e recuando do círculo de criaturas para melhor defender-se.
Enquanto recuava, fitando cada movimento de seus oponentes, uma luz brilhou atrás deles, atrapalhando um pouco sua visão noturna. Era o brilho de uma estrela, ou algo semelhante, que não devia estar ali. A luz fez os mortos-vivos olharem para trás na direção dela e, ao recebê-la em seus olhos, metade deles gritou e fugiu. A luz parecia mais forte, como se estivesse se aproximando, e começou a diminuir. O elfo então pôde perceber que ela provinha de um objeto na mão de alguém que já se encontrava a meros passos dos mortos-vivos. Quando o clarão cessou totalmente, ele conseguiu reconhecer a silhueta do homem que estava caído a alguns metros dali, agora de pé, e com uma maça em sua mão, pronto para combater as criaturas novamente.
Restavam apenas quatro delas agora. Os dois homens instintivamente tiveram a certeza de que estariam lutando do mesmo lado, pelo menos nesta luta. E isto os fortaleceu de alguma forma. Tendo a confiança de não estar lutando sozinhos, os dois rapidamente terminaram a semi-vida de seus inimigos. Mas, assim que o último deles tombou, o homem de ricas roupas caiu de joelhos, perdendo a firmeza em sua arma. O elfo logo estava ao seu lado, tentando de alguma forma ajudar o homem ferido. Ele apenas fez um sinal com a cabeça, liberando o elfo de tal responsabilidade, e disse:
-         É tarde demais. Permita que eu morra em paz.
-         Não... Você quis lutar com aquelas criaturas, mesmo à beira da morte... não merece morrer assim..
-         É inútil tentar me ajudar! Ouça o que estou lhe dizendo! A mordida deles era venenosa. E este veneno já fez seu efeito... Logo eu me tornarei um deles... Se quer fazer algo por mim, não me deixe ser privado de meu descanso eterno. Assim que meu coração bater pela última vez, eu já serei um deles. A não ser que meu corpo não esteja preservado...
-         O que você quer dizer com isso? Me diga pelo menos o que eles eram. Você parece saber mais do que eu sobre eles...
-         Carniçais... mortos-vivos... Trazidos de volta da morte pela gula e cobiça, pela vontade de querer sempre mais... e espalhando sua maldição entre suas vítimas... – O homem puxou sobre seu peito um símbolo sagrado religioso, representando um brasão com uma balança sobre um martelo.
-         O símbolo da ordem de Tyr... – aquilo deu ao elfo a certeza de que este homem sabia algo sobre sua terra natal – Você... de onde você é?
-         Uma vez eu fiz parte da ordem de Tyr em Cormyr... mas isso foi há muito tempo...
-         Meu nome é Gunthar. Nasci em Cormanthor e morei em Shadowdale por vários anos... até vir parar aqui...
Os olhos do homem pareceram acender-se novamente com a chama da vida. Ele havia acabado de receber, em seus últimos instantes de vida, uma nova esperança. – Você... você deve saber então... – ele retirou de um bolso duas jóias ovais brilhantes, uma vermelha e uma marrom. – Estas... estas são apenas uma parte de um todo. Se todas as sete jóias puderem ser encontradas e reunidas, elas revelarão um caminho para aquele que as possui... Eu não tive o tempo suficiente para encontrar todas elas, mas você terá... tome.
Gunthar tomou as pedras em sua mão, e naquele momento, ficou ciente da importância delas. Elas seriam agora seu tesouro, aquilo que ele protegeria a qualquer custo. Pois elas seriam sua passagem de volta para casa.
O homem segurou a mão do elfo e, em seus últimos suspiros, disse:
-         Eu já lhe dei algo de valor. Algo mais importante do que qualquer outra coisa que você possa encontrar nestas terras. Agora lhe peço que cumpra minha vontade. Não lhe considerarei meu carrasco por isso... mas meu salvador. Faça o que deve ser feito. Conceda- me meu descanso de direito...
-         Assim será feito. Sua ajuda foi maior do que você imagina. Adeus, amigo.
Gunthar levantou-se e ergueu sua espada com as duas mãos, esperando o momento certo, sem querer privar o homem de seus últimos segundos de vida. Ele então percebeu que não sabia o nome daquele que o ajudara nesta noite. Seus lábios moveram-se para fazer a pergunta, mas ele foi interrompido pelo súbito movimento do homem a seus pés: seus olhos estavam arregalados, mostrando a cor amarelada típica dos olhos das criaturas que eles acabaram de derrotar, e sua boca se arreganhava, revelando dentes afiados e totalmente diferentes do que haviam sido momentos antes.
A espada cortou o ar e atingiu o pescoço do homem, interrompendo seus gritos inumanos.
-         Está feito. Espero que ele tenha encontrado seu merecido descanso.
O elfo olhou mais uma vez para as pedras que havia recebido, e as imagens de seu lar enchiam sua mente. As árvores verdejantes, os rios, os animais inofensivos, a felicidade e a despreocupação no rosto das pessoas. Ele só precisava encontrar mais cinco jóias daquelas, onde quer que elas estivessem. Mas agora haveria algo mais para ajudá-lo: esperança. Um sinal de que ele não ficaria perdido nestas terras para sempre. De que ele veria seu lar novamente.


           Gunthar agora retomava a estrada. O sacerdote havia sido devidamente enterrado e uma oração a Tyr havia sido feita pelo elfo. Ele não era um seguidor de Tyr, mas lembrava-se de algumas orações para aquele Deus. A estrada parecia ligeiramente mais clara e mais segura agora. As preocupações pareciam ter se esvaído de sua mente, juntamente com seus medos. A única coisa com que ele se preocupava agora era chegar em Il Aluk, capital de Darkon, e iniciar sua procura pelas outras jóias. Ele havia ouvido falar sobre o Rei Azalin de Darkon, um poderoso mago, e imaginava se poderia conseguir alguma informação com este rei.
           Faltavam apenas cinco jóias.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Diário

O jovem psiquiatra adentrou lentamente o quarto de seu predecessor. Era direito seu fazer isso, mas, ainda assim, parecia-lhe uma invasão de privacidade, tantos eram os objetos pessoais deixados para trás, não havendo ninguém para herdá-los. Estava claro que levaria algum tempo de mudanças e faxinas até que o recinto se tornasse realmente seu quarto. Parece um dos melhores do Hospício, ele pensou, já que dali não se podia ouvir os ruídos incessantes dos internos do outro lado do pátio – um privilégio honestamente alcançado pelo falecido Dr. Corrêa.

Colocando a mala ao chão, ao lado da cama, o jovem sentou-se à mesa e pôs-se a escrever uma carta para casa. Após dar detalhes de sua viagem e chegada ao Rio de Janeiro, ele finalizou:

“O pagamento é realmente tudo aquilo que me disseram. Em apenas alguns meses, serei capaz de trazer-te para cá, junto com as meninas.

De teu filho querido,

Ernesto”

Foi apenas quando começou a dobrar o papel da carta para colocá-la no envelope que reparou no livro sobre o qual escrevera a mensagem. Um livro fino e pequeno, com capa de couro marrom, de um tipo muito comum para fazer anotações e registros. Após apropriar-se do quarto e do cargo, não seria um crime tão grande virar a primeira página de um livro que provavelmente continha anotações pessoais. E ele o fez.

“Aquele que caça monstros deve tomar cuidado para não tornar-se ele mesmo um monstro.”

A foto de um corpo mutilado não poderia tê-lo assustado mais do que a simples frase. Não eram apenas letras ajuntadas com um significado; cada caractere parecia uma expressão única de sofrimento, uma forma de livrar-se de um mal incurável, um garrancho com uma personalidade maligna. Eram dezenas de pequenos rostos de demônios chamando-o, impelindo-o a passar mais uma pámpelindo-o a passar mais uma pidadencurse. para n de um tipo muito comum para fazer anotaçgina, a arriscar-se num mundo de medos e de segredos. E a frase, ele sabia que já ouvira aquela frase antes, não fazia muito tempo. Uma citação, mas de quem? Um aviso? Para quem?

Percebendo que prendera a respiração enquanto olhava para a lúgubre página, Ernesto suspirou. Um breve olhar para a porta aberta confirmou-lhe que o corredor além estava vazio. Os outros quartos estavam em silêncio. Com passos trêmulos até a porta, ele fechou-a lentamente, com medo dos próprios sons, e olhou de volta para a mesa e para o curioso manuscrito que sobre ela se encontrava.

– Fecharei aquela coisa maldita e dormirei. – Ele pensou. – Amanhã é meu primeiro dia de trabalho e não posso perder tempo com tolices.

Uma hora passou-se e o sono não veio. Ernesto levantou-se da cama e retornou à mesa e ao livro.

* * *

No dia seguinte, após preparar um copo cheio de café quente, Ernesto se escorava na parede da sala de tratamento enquanto o Diretor lhe explicava a rotina do lugar. A maioria do que foi dito se perdeu em questão de segundos. Havia algo sobre oficinas para os internos, onde eles aprenderiam diversas funções de manufatura. Mas que deixe o velho falar. De que importava a rotina do Hospício agora? As páginas manuscritas passavam perante seus olhos novamente, em pleno ar. Nada mais existia.

“18 de janeiro de 1897.

Não sei ao certo porque decidi começar este diário, já que as únicas pessoas ao meu redor capazes de ler o que escrevo são as pessoas de quem escondo o que tenho descoberto. Ainda assim, mantenho esperanças de que um dia estas anotações caiam nas mãos de alguém que se importe, alguém de fora daqui, que ainda não tenha sido distorcido pelo mal que permeia este lugar.

Inicio meu relato comentando sobre o comportamento dos internos. Há uma grande tendência entre eles em acharem que não são loucos, como seria esperado. Porém, em muitos momentos, eles realmente parecem sãos. São capazes de estabelecer diálogos coerentes, sobre assuntos complexos. Não fossem os recorrentes casos de distúrbios de personalidade, eu mesmo emitiria um atestado de sua sanidade e lucidez.

Meus colegas, ao contrário, não são capazes de perceber estas nuances. Tratam-nos como qualquer interno em qualquer hospício. Talvez seja este o motivo pelo qual me excluem. Consideram-se os donos da verdade, apenas por estarem aqui há mais tempo que eu. Portanto, também evito conversar com eles a respeito dos fenômenos recentes que tenho observado. Pretendo descobrir a natureza destes fenômenos e temo que abordar este assunto com eles possa apenas dificultar minha meta.

Quando digo fenômenos, refiro-me a estranhos eventos que tenho presenciado nesta instituição. O primeiro fato ocorrido foi há cerca de um mês, enquanto eu passava próximo à escada que leva ao último andar do Hospício. O nítido som de uma risada chegou aos meus ouvidos, vindo do alto dos degraus. Foi uma risada abafada e logo contida por seu emissor, mas, ainda assim, capaz de ser ouvida. Desde que estou aqui, disseram-me que o último andar encontra-se em condições precárias, que o ar lá é impuro e que o piso precisa de reparos. Porém, mesmo com todas essas adversidades, alguém estava lá e, provavelmente, estava acompanhado. Não fui capaz de aquietar minha curiosidade. Aquele fato precisava de respostas. Respirei fundo e subi os degraus.

A descrição que me deram do último andar fazia jus ao seu estado. Era preciso reparar no chão com cuidado antes de dar cada passo; a luz elétrica não funcionava. O ar era realmente pesado e havia vários móveis quebrados espalhados pelo caminho. Percebi que eu não obteria muito êxito se prosseguisse desta forma, portanto, retornei ao pé da escada e apossei-me de um lampião que ali se encontrava. Reitero que o caminho que fiz foi apenas esse: do último degrau para o primeiro e, novamente, escada acima, portando o lampião. Era humanamente impossível uma pessoa descer a escada sem ser vista e desaparecer enquanto eu ali estava. Ainda assim, munido de luz, vasculhei cada canto daquele andar, revirei cada móvel quebrado, sem encontrar uma viva alma. Minha mente não podia aceitar esta possibilidade, de que não havia ninguém ali. A risada havia sido clara, sua origem, aquele andar. Pensei então que meus colegas pudessem ter um acesso secreto àquele piso, onde eles conduziriam atividades ilícitas e imorais, longe de olhares curiosos. Não me atrevi a pensar na possibilidade de algum dos internos ter chegado ali. Fosse esse o caso, poderíamos ter um problema muito maior em mãos.

Insatisfeito e inquieto, retornei a meus afazeres, completamente distraído pelas inúmeras explicações que, inconscientemente, eu tecia.”

Insatisfeito e inquieto. Ao lembrar-se da última frase lida, Ernesto não pode conter uma breve risada. E então percebeu que este ato seu fizera o Diretor calar-se. Recompondo-se, desculpou-se e pediu ao patrão que continuasse com suas instruções. Por quanto tempo o velho havia falado sem parar? Mas ele apenas dispensou o novo membro, impaciente, e acendeu um cachimbo.

* * *

Não houve como retomar o trabalho sem parar de pensar nas escadas. A noite mal-dormida apenas ajudava o inconsciente a trabalhar, quase fazendo com que Ernesto sonhasse acordado enquanto andava pelas dependências do hospício. Por fim, a vontade o venceu e, sem se preocupar com seus afazeres, ele rumou ao último andar.

A escada era exatamente igual à que ele havia imaginado ao ler o diário. Seus ouvidos estavam atentos ao mais ínfimo dos sons enquanto ele subia lentamente os degraus. Porém, não houve risada alguma. Apenas o lento ranger da madeira sob cada pisada sua. No topo, a poeira e os entulhos de um andar transformado em sótão.

A luz ainda não funcionava ali, mas, como ainda era manhã, o sol entrava por janelas escondidas atrás dos móveis quebrados. Ernesto estava aliviado por perceber que, ao contrário das escadas, o lugar não era como ele havia imaginado. À noite, porém, quando fosse necessário subir aqueles degraus com um lampião... Mas, em plena manhã, o recinto parecia tão calmo quanto seu próprio quarto, distante dos ruídos rotineiros do estabelecimento.

Andando entre os móveis, Ernesto quase chegou a duvidar do relato lido na noite anterior. Quase. Foi quando ele encontrou um curioso conjunto de quadros no chão, encostados em um armário antigo. Havia cinco pinturas ali, trabalhos amadores que não transmitiam nenhum significado óbvio. Cores aleatórias, figuras disformes, apenas um ocasional olho reconhecível ou um boneco de palitos que mal podia ser distinguido. Pinturas dos internos. Não era difícil determinar a origem daqueles quadros. Era uma das novas técnicas de terapia instituídas no hospício, uma alternativa aos métodos tradicionais de violência e encarceramento.

Ao ajuntar os quadros para colocá-los de volta onde estavam, Ernesto se deu conta que não tinha visto o último quadro, um que ficara encostado de frente para o armário. Deixando os outros de lado, ele pegou o quadro restante e virou-o lentamente. A definição desta pintura surpreendeu-o. Era possível dizer com clareza o que significava a maioria dos elementos presentes. E esse reconhecimento fez as mãos de Ernesto tremerem.

A escada que ele acabara de subir estava representada perfeitamente ali. Algo lhe dizia que, mesmo se ele se atrevesse a contar os degraus, encontraria o número correto. A mesma fidelidade era válida para todo o corredor que levava à base da escada. O andar de cima, porém, o sótão onde ele se encontrava, era representado apenas por um pequeno retângulo preto com manchas vermelhas. E entre essas manchas, pequenas figuras brancas, cada uma com a forma de uma meia-lua deitada.

Algum receio repentino fez Ernesto desviar seus olhos do quadro momentaneamente e olhar em volta. Ninguém. Voltou a fitar a pintura, focando-se, desta vez, nas figuras brancas espalhadas pelo sótão negro. Então, foi capaz de reparar mais um detalhe nelas. Todas eram preenchidas por listras verticais, regularmente espaçadas. Sorrisos. Dezenas deles.

O quadro caiu da mão de Ernesto e o barulho causado fez sua respiração parar por um segundo. Desta vez, ele teve medo de olhar em volta. Medo de ver-se cercado por formas fantasmagóricas que não pertenciam mais a este mundo, zombando dele, humilhando-o. Rindo, sem parar.

Retomando o fôlego, ele abaixou-se, tremendo, e pegou o quadro novamente em suas mãos. Mais um novo detalhe. Na base do retângulo negro que representava o último andar, estava desenhado um corpo caído. Ernesto não se conformou com aquele detalhe. Era um elemento grande o suficiente para ter passado despercebido até então. Ele estivera lá este tempo todo e não fora visto? Havia sido ignorado pela mente cansada do psiquiatra na primeira vista? Ou acabara de ter sido criado pela mesma mente cansada? O corpo parecia estranhamente familiar, um homem magro, de cabelo preto e curto, vestindo um jaleco e usando óculos... pavorosamente parecido com Ernesto.

Desviando o olhar, ele esqueceu-se dos medos e ergueu a cabeça. Não sabia se teria a coragem suficiente para voltar a examinar a pintura. De qualquer forma, algo mais o fez esquecer o quadro por aquele instante. No alto da escada, olhando para ele sem expressão alguma, estava um garoto.

* * *

A aparência do garoto era perturbadora. O cabelo louro e espetado não crescia em certa parte de sua cabeça, próximo à testa, onde havia apenas uma grande e feia cicatriz. Seus olhos perdidos fitavam o vazio e seu lábio inferior parecia pesado demais para que a boca ficasse fechada. A roupa, toda suja de barro e de excretas. Levando em conta todas as características grotescas, Ernesto estava certo de que se tratava de Joaquim, o mais novo dos internos.

Ele já ouvira falar sobre o garoto, que fora encontrado em uma casa abandonada com um sério ferimento na cabeça. Nunca se descobriu quem era sua família e o governo financiava sua estadia e tratamento no hospício. O ferimento deixara-o com certas disfunções mentais, privando-lhe de conceitos como moralidade e respeito, o que causou diversas situações constrangedoras com outros internos e com os próprios médicos.

– Aqui não é o Céu? – ele disse sem demonstrar expressão alguma.

Ernesto levou alguns segundos para recuperar-se do susto do quadro e do garoto que chegara furtivo e tudo que conseguiu responder foi um “não”.

Joaquim aproximou-se, e seus olhos não desgrudavam do quadro nas mãos do médico. Pretendendo livrar-se dos dois incômodos, Ernesto entregou a pintura ao garoto e afastou-se bruscamente na direção da escada. Antes de descer o primeiro degrau, porém, ouviu o garoto dizer:

– Carrasco...

Paralisado pela palavra, Ernesto olhou incrédulo para o garoto, que virou-se em sua direção e repetiu o mesmo termo:

– Carrasco. Esse quadro é dele. Eu vi ele pintando.

Carrasco. O nome ainda ecoava, mas ele não sabia se era no aposento ou em sua cabeça. Mais uma vez, os demônios em forma de letras do diário apareceram à sua frente, recontando-lhe o que ele lera durante a madrugada.

“25 de janeiro de 1897.

Por mais estranho e doentio que pareça, a pessoa com quem mais tenho liberdade para conversar neste lugar é o Carrasco. Sua índole é pervertida e seus hábitos são repulsivos, mas sua mente é fascinante. Ao mesmo tempo em que sinto nojo e ódio dele, também sinto respeito e admiração. Apesar de encarcerado e isolado, o homem sabe de alguma coisa. Ele compreende que estas paredes abrigam algum segredo, que as pessoas daqui escondem-se atrás de fachadas para que seus pecados não sejam expostos.

A cada vez que sou obrigado a permanecer na mesma sala que ele, procuro estabelecer certa ligação, demonstrar certa empatia, na esperança de que ele se sinta confortável para falar sobre tais assuntos. Porém, ele sempre fala de forma vaga, obrigando-me a analisar cada frase para encontrar seu significado. Após estudar suas charadas, cheguei à conclusão de que certos atos furtivos foram presenciados por alguns internos, sem que estes tivessem a noção do que estava a ocorrer. E, se minha interpretação está correta, estas infelizes testemunhas foram punidas severamente por terem visto algo que não compreenderam.

Talvez, o próprio Carrasco tenha testemunhado algo. Isso explicaria o certo exagero correcional que às vezes é realizado com ele, mas ainda não consegui aproximar-me o suficiente para ter certeza. Percebi que ele se sente mais à vontade para expressar-se através das pinturas. Se for possível levá-lo novamente para esta terapia, é provável que ele diga mais sobre o que sabe, mesmo que eu tenha que interpretar quadros em vez de frases.”

O Carrasco ainda era um interno na instituição. Ernesto ouvira falar dele assim como ouvira sobre Joaquim. E tudo indicava que agora era a hora de falar com ele, de tentar o que o autor do diário tentaria, levá-lo de volta à terapia de pintura.

– Diz-me, garoto, em que ala se encontra o Carrasco?

– O Carrasco está no Inferno.

Se o sótão era o Céu para Joaquim, os andares subterrâneos seriam o Inferno. Ernesto tomou de volta o quadro das mãos dele e, apressadamente, desceu as escadas, sem se preocupar com o que o garoto poderia fazer ao ser deixado para trás ali. No final da escada, ao olhar mais uma vez para a pintura perturbadora em suas mãos, Ernesto verificou que o corpo retratado, tão semelhante a ele, não mais se encontrava ali.

* * *

Ernesto consultou os registros das sessões para verificar quem era o psiquiatra responsável pelo Carrasco, porém nenhum dos internos estava registrado pelo apelido. Entre todos aqueles nomes, era impossível saber quem era o que ele procurava. Resolveu então perguntar a um funcionário, que lhe respondeu prontamente que o tratamento do Carrasco era feito pelo Dr. Corrêa. Tendo herdado os pacientes da mesma forma que o quarto e o cargo, ele também tinha o direito de completo acesso ao interno.

Assim, ele desceu até o mais inferior dos andares, onde ficavam apenas os pacientes que demonstravam algum perigo. Inferno, o pequeno Joaquim havia dito. Talvez ele não estivesse tão errado. O saneamento daquele andar era inexistente. O mal-cheiro era tamanho que Ernesto chegou a pensar que todas as fossas do instituto desembocassem ali. A iluminação e a ventilação eram mínimas. Ao contrário de seus colegas, Ernesto imaginava se este ambiente precário não estaria influenciando na recuperação dos pacientes. Mas parecia que ninguém mais se importava.

Havia apenas um faxineiro no andar, que não deu a mínima atenção para a presença do médico ali. Virando a primeira curva, Ernesto chegou à cela do Carrasco. Parado a alguns passos da porta, chamou-o:

– Carrasco! – Pois não sabia seu nome.

Houve barulho de movimentos no interior e logo uma mão suja apoiou-se nas barras da pequena janela. Havia um rosto por trás daquela mão, mas não era possível distinguir com clareza suas feições, apenas uma barba por fazer e uma boca desprovida de vontade.

– Não te conheço. – A voz era calma, porém, ameaçadora. – E vejo que também não me conheces.

– Sou o Dr. Ernesto, recém-contratado pelo hospício para substituir teu conhecido Dr. Corrêa. Deves saber que ele faleceu há pouco. E se conhecesse teu nome, chamar-te-ia de acordo.

– O Dr. Corrêa foi um homem bom, mas não mais que um tolo. És o mesmo tipo de homem?

– Não posso comparar-me a alguém que não conheci. Na verdade, sei mais ao teu respeito que ao dele. E é por isso que venho aqui. Sei que ele tratava-te com terapias, com pinturas. – Ernesto aproximou-se cuidadosamente da porta.

– E foi aí que começou sua ruína. Ele buscava significado nas obras de um louco. Buscava razão onde só havia caos e insanidade. Mas só encontrou o que lá havia de fato: o caminho para a perdição.

Este homem não é louco, pensava Ernesto. Pode ter cometido crimes hediondos perante os olhos da sociedade, mas executou-os com lucidez e clareza, as mesmas que mostra agora. E, definitivamente, ele sabe de algo. Só preciso fazer com que confie em mim.

– Sei que o Dr. Corrêa ajudou-te a lidar com teus problemas. Li que encontrou uma maneira para que tu expresses aquilo que te incomoda. Que ele era capaz de decifrar tuas pinturas.

– Leu? – A risada que dele veio era como o rosnado de um animal perigoso. – Então és mais tolo ainda do que pensei. Em primeiro, por entregar-te a tais escrituras. E em segundo, por acreditar que o autor fora o Dr. Corrêa. Parte daqui enquanto é tempo, doutor. Não cometas o mesmo erro de teu antecessor. Não leias algo que nunca devia ser lido.

Ernesto não podia ver o homem dentro da cela, mas sabia que era alguém de certo porte, capaz de intimidar facilmente homens menores como ele. E era assim que ele se sentia, intimidado. A frieza do Carrasco e a revelação de que o autor do diário era outro foram bastante incômodas, fazendo com que ele quisesse sair dali o quanto antes. Mas não podia partir assim, sem sanar ao menos a mais crucial das dúvidas:

– Se o Dr. Corrêa não é o autor, quem é então?

– Achas mesmo que ele morreu como conseqüência da idade avançada? A verdade é perigosa, doutor. Foram perguntas deste tipo que cavaram sua tumba. – À medida que proferia estas últimas palavras, o Carrasco afastava-se mais para o fundo de sua cela, saindo totalmente do campo de visão de Ernesto.

* * *

A conversa com o Carrasco deixara-o completamente abalado. No lugar de respostas, ele encontrara apenas mais perguntas. Mas algo lhe dizia que ele estava no caminho certo. Havia um segredo final e ele estava bem próximo. O que quer que este segredo fosse, sua chave era o diário. Mas quem o escrevera?

O Dr. Corrêa havia sido apenas um leitor, atraído pela estranheza do diário da mesma forma que acontecia com Ernesto agora. Mas ele foi fraco e sucumbiu aos segredos e seus guardiões. Ernesto podia provar-se mais forte que ele. Podia tornar-se digno de chegar ao final da charada. E o caminho para tal, ele pensava, era descobrir quem era o autor daquele diário. Ele estivera aqui algum dia, pode ainda estar por aqui, vivo. Precisava encontrá-lo.

A solução parecia tão simples que, mais uma vez, privou-o de qualquer concentração no trabalho durante o resto do dia. Os afazeres foram todos terminados com pressa e sem atenção, completamente menosprezados se comparados à grandiosa tarefa de ler mais do diário. A noite finalmente chegou e o reencontro com as letras já familiares propiciou-lhe um alívio incomparável.

“15 de junho de 1897.

Finalmente, após meses, algo concreto em minha busca pela verdade. Se minha interpretação da última pintura do Carrasco estiver correta, obtenho ao mesmo tempo uma resposta a minhas indagações e uma arma contra aqueles que administram este lugar. A obra trata-se de uma retratação fiel do último andar e da escada que leva até ele. No topo, há apenas escuridão e figuras que podem ser entendidas como sorrisos sem dono. Ultimamente, o Carrasco tem falado muito sobre desrespeito, maus tratos e humilhação. Sempre de forma críptica, mas ainda capaz de ser relacionada com sua pintura.

Sou levado a concluir que o último andar é o local para onde ele foi levado e, lá, submetido a algum tipo de tortura, física ou mental, devido a algo que tenha presenciado aqui. Não sei ainda quais segredos ele descobriu, mas sei ao menos o que foi feito com ele. E pretendo fazer algo a respeito.

É chegada a hora de fazer frente aos demônios que se auto-intitulam restauradores da saúde mental. Levarei esta empreitada até o fim, ou meu nome não é João Batista. E deixo este diário, uma acusação contra todos os inescrupulosos médicos e funcionários deste lugar, para que, caso eu falhe e seja impedido de continuar minha cruzada, outros possam se armar com a informação necessária para subjugar os pecadores.”

Um nome! O detalhe de que ele tanto precisava! Restava agora saber se o tal João Batista ainda trabalhava no hospício, ou para onde havia partido, se ainda estivesse vivo. Era hora de alcançar o segredo final.

* * *

Ainda no meio da noite, Ernesto deixou seu quarto para investigar os registros dos médicos residentes. Era um assunto que não podia esperar até a manhã, quando seus adversários estivessem todos acordados e prontos para impedir suas ações. Na sala de registros, revirou todas as gavetas, todos os armários e baús, mas nem um sinal do que procurava.

Quando percebeu, um dos zeladores estava de pé na entrada da sala, olhando para ele com certo receio. Quando foi visto, o zelador se pôs na direção oposta e tocou um sino que havia no corredor. Surpreso com a reação do funcionário, Ernesto não sabia ao certo o que fazer. Ele já estava exposto, isso era certo. Quando os outros soubessem de sua incursão noturna aos arquivos, fariam um inquérito e logo descobririam que ele estava à procura de João Batista. Não havia mais tempo. Tudo o que restava a fazer era encarar de frente seus oponentes.

Dois psiquiatras e três enfermeiros logo chegaram à sala. Rapidamente, Ernesto percebeu a maneira como olhavam para ele e como se aproximavam. Ele já havia visto esse padrão antes, era a maneira como eles abordavam algum interno para detê-lo e controlá-lo. Era isso o que ele parecia para eles agora? Um lunático? Se pudesse ver a si mesmo, em meio ao caos que se tornara a sala de registros, com o semblante transtornado que exibia, chegaria à mesma conclusão. Enquanto os enfermeiros rodeavam-no, prontos para prendê-lo, Ernesto apontou o dedo para os médicos, que se mantiveram a certa distância e gritou:

– Não há mais como guardar este segredo! Mataram todos aqueles que sabiam, terão que matar a mim também! Mas não antes que eu diga ao mundo o que acontece aqui! O pobre João Batista estava certo! Ele foi o primeiro a descobrir toda a verdade! E o que fizeram com ele? Não só desapareceram com ele, como também fizeram desaparecer qualquer registro sobre ele! Suponho que o mesmo também tenha acontecido com o Dr. Corrêa, não é mesmo? Ele sabia demais... e teve o mesmo fim... E vejo que o próximo serei eu...

Os médicos trocaram olhares preocupados enquanto Ernesto se manifestava, um misto de pena e cautela. Os enfermeiros fecharam-se sobre ele e não havia mais como escapar. Uma seringa perfurou seu braço com violência e ele sentiu a consciência esvaindo-se sem esperanças de resistência. Seus gritos cessaram e ele ainda foi capaz de ver o diretor do hospício chegando no local, ainda de pijamas.

– Parece que ele teve certo tipo de contato com João Batista, senhor. – Um dos médicos lhe informava. – O melhor seria...

Os lábios mexiam-se, mas já não havia mais som. Logo, as imagens também partiram. Apenas as trevas permaneceram.

* * *

O silêncio foi interrompido por um constante som de lápis correndo sobre papel. Era um som irritante, rápido e incansável. Ainda assim, denotava certa familiaridade. Aos poucos, o som despertou seus outros sentidos. Quando foi capaz de distinguir os cheiros que sentia, preferiu voltar ao estado anterior, em que eles estavam ausentes. Mas eles diziam-lhe algo. Diziam que ele estava em algum lugar conhecido. Algum lugar escuro e profundo. O Inferno.

Sentando-se bruscamente, Ernesto colocou-se de costas contra a parede úmida, para que pudesse ficar de frente para a figura que compartilhava sua cela. A luz fraca não o ajudava muito a identificar seu companheiro. Podia ver apenas que ele também estava sentado, e seus pés estavam descalços.

– Quem... quem és? – A pergunta saiu bastante arrastada, sem dúvida por efeito das drogas que lhe haviam aplicado.

A escrita parou bruscamente e a voz que veio das trevas era calma e pensativa:

– Ah... despertaste. Bem-vindo, amigo.

O lápis continuou seu caminho incessante sobre o papel e Ernesto forçava sua memória a lembrar-se daquela voz. Era uma voz conhecida, mas em um tom diferente. Aproximando-se, ele pôde ver o queixo e as mãos e então se lembrou do Carrasco. Mas ele não falava tão calmamente nem usava óculos como agora. O lápis era incansável.

“6 de dezembro de 1898.

Acabo de descobrir que um novo paladino junta-se à minha cruzada. Ele encontrou meus relatos anteriores e prosseguiu com a busca. Agora que estamos do mesmo lado, serei capaz de ensiná-lo melhor como proceder a partir deste ponto. O pobre infeliz teve o infortúnio de ter sido agredido pelos internos assim que chegou e agora ainda se encontra atordoado, mas acredito que em breve poderá me auxiliar no tratamento do Carrasco.”

– Quem sou, perguntas? Meu nome é João Batista. Esperei muito por ti.